Petra Pinto sobre a experiência de transe no Giro Sufi

Originalmente publicada em arte-factos.net, a 31 de Janeiro de 2013.

Podemos ver o corpo como um receptáculo do movimento: nas danças de possessão, na tarantela, nas «danças de S. Vito», etc., o corpo se torna a cena ou o espaço da dança, como se alguém – um outro corpo – dançasse no interior do possesso.

O corpo do bailarino desdobra-se no corpo-agente que dança e no corpo-espaço onde se dança ou antes, que o movimento atravessa e ocupa. Para que a dança – e já não a possessão – comece, é necessário que já não haja espaço interior disponível para o movimento; é necessário que o espaço interior despose tão estreitamente o espaço exterior que o movimento visto de fora coincida com o movimento vivido ou visto do interior. É, com efeito, o que acontece no transe dançado, onde nenhum espaço é deixado livre fora da consciência do corpo.

José Gil, 2001, “Corpo Paradoxal”,  Movimento Total – O Corpo e a Dança, Lisboa: Relógio d’Água, p. 60

Petra Pinto é natural de Lagos, mentora do projecto Companhia Mozarabe e do Festival Internacional Rosa do Deserto. Lecciona Dança Oriental desde 2005 em Coimbra e tem dedicado a sua vida ao estudo do corpo e das representações do feminino a par de abordagens contemporâneas. A convite de várias entidades já actuou por todo o continente e ilhas, Espanha e França, onde tem também desenvolvido workshops e cursos intensivos de dança oriental e consciência corporal. É ainda colaboradora da Companhia de Teatro Viv’Arte. Foi na gala Mohamed Shahin, a 3 de Novembro de 2012,  no auditório Orlando Ribeiro, que assistimos ao seu Giro Sufi e surgiram algumas curiosidades…

O que despertou em si o interesse pelo Giro Sufi e há quanto tempo pratica?

Interessante, por que foi o Sama que despertou o interesse por mim própria. Numa busca constante de auto-compreensão e aceitação, o cosmos foi-me revelando o “giro sufi”. Quanto mais me entregava a uma busca pessoal de auto-conhecimento mais Rumi e o “giro sufi” espreitavam nas esquinas da minha existência. Foi tudo muito rápido e começou há três anos apenas.

O 1º workshop que fiz de “giro sufi” foi com a Liliane Viegas da Danza Duende, no Estúdio Sétima Posição. Fui levada por uma grande amiga e mestre de Reiki Maha, Nicole Pereira. Éramos só nós as duas. Realizei o workshop com uma surpreendente naturalidade infantil. Afinal, a maioria das crianças adoram girar de forma compulsiva.

No seio da Companhia de Teatro Viv’Arte tive a oportunidade de adquirir uma série de conhecimentos que me impulsionaram para descobrir o Sama. É uma Companhia com um núcleo muito especial de Almas, um vortice de forças em constante tensão e que podem ser inteligentemente veiculadas para o crescimento pessoal e artístico.
Foi com eles que vi centenas de vezes, ao longo destes anos, Emad Selim actuar. O que desmistificou alguma técnica. Mas foi Mustafa Sina, que revelou alguns caminhos fundamentais. Que nada têm a ver com mestria da biomecânica corporal. Ele é simplesmente incrível na ligação que tem ao cosmos e à natureza e na forma como se revela enquanto gira. A minha alma olhou a sua.
Ainda neste contexto toda a cumplicidade existente entre os elementos da Companhia Mozarabe, a Marta M. e o Horus que os tenho como família, e dois dos músicos com quem sinto uma grande afinidade energética, Nilson Dourado e Tiago Santos, é um trampolim para a revelação pessoal através da expressão artística. O Nilson foi de facto um dos catalisadores mais importantes deste meu percurso. Ele entrega-se de forma consciente e voluntária, conduzindo-nos com os seus sopros melódicos a uma extraordinária viagem a dois.

Outro ponto alto do meu ainda recém-nascido percurso foi o contacto com o Sheik Ahmed Dede. Uma pessoa indescritível e um verdadeiro Mestre.

Concorda com o excerto de José Gil, que traduz a ideia de que, no transe dançado, o “espaço interior” do corpo tem de se preencher completamente, ou considera, pelo contrário, que este tem de se esvaziar até que se sinta a ausência do seu “eu” e se sinta apenas a presença de um movimento? Consegue explicar esse processo do giro? É algo que passa pela consciência corporal – com tudo aquilo que implica: equilíbrio, concentração,… – ou é um movimento que naturalmente ou que de forma orgânica se dá?

Não posso discordar do que desconheço. As actividades extáticas são inúmeras, infindáveis e inumeráveis… Não posso falar em termos generalistas. Só posso emitir a minha opinião alicerçada à minha experiência pessoal com o Sama, ao relato de outras experiências que comigo foram partilhadas e ao conhecimento mais profundo dos estudos de Giselle Guillon, a quem tanto devo.

O que ocorre durante o processo é um estado de harmonia entre o corpo, a mente e o coração. Um estado de unicidade. Só somos nós com tudo o que nos pertence, de bom e de mau. A ideia que os estados de graça, o êxtase, o bem estar só é alcançado com a aniquilação de partes (com principal enfoque no corpo) que nos compõem é totalmente contrária aos princípios do Sama por mim experienciados, onde a aceitação de nós próprios de forma totalitária é o pilar do Amor Universal e o condutor a esse estado de êxtase.

No “giro sufi” a “possessão” é uma possessão de um certo tipo de energia que pode ser percebida no estado alterado. Essa é uma energia inteligente. Que nos questiona e soluciona ao mesmo tempo. É a essência da Alma e da Vida.

Para que isso ocorra há um anacronismo entre essas duas ideias que suscita na questão e que dialecticamente se vêem confrontadas durante o Sama. Sucedem alternadamente num turbilhão impossível de fixar no tempo.

A domesticação dos Nafs (egos) é um dos fundamentos primordiais do Sama. O estudo dos Nafs para mim é obrigatório pois só os podemos reconhecer se lhes conhecermos as mais hábeis e mascaradas facetas. E esse é para mim o mais revelador dos estudos do “eu”. Durante o Sama recebemos os nossos Nafs e conhecemo-los intrinsecamente. Vão chegando e vão indo deixando entre si espaço para o vazio completo. Esse vazio não é mais do que a abertura de coração para a aceitação, para o Amor. Esse vazio é um convite para que o que estiver à espera possa entrar.

A alma sabe como se mexer e expressar. Ela sabe tudo sobre nós.
Então o processo é muito simples… tem ver com Amor e Coragem. A coragem para nos despirmos diante dos nossos próprios olhos nasce do Amor com desapego. Isso é equilíbrio, concentração, e tantos outros factores que são tão físicos como emocionais e que estão umbilicalmente interligados pelo ser uno que todos nós somos.

Há alguma simbologia em torno do Giro Sufi, nos gestos de quem o pratica? Sente-se uma sensação mista de alegria e vulnerabilidade quando a Petra dança…

Os gestos são um dos elementos constitutivos dos rituais (sociais, religiosos, profanos, de expressão…). O ritmo, a amplitude, a velocidade destes movimentos e destas acções têm a maior das importâncias. Distinguem-se se segundo as suas finalidades e as suas motivações contribuindo para a inscrição dos corpos nas relações intrínsecas e extrínsecas ao Ser. Podem ser inconscientes ou conscientes, mas traduzem sempre um simbolismo impresso da necessidade expressiva e expansiva desse mesmo Ser.

Todos os movimentos que emanam dos místicos durante o Sama representam uma ideia ou uma verdade. Esses movimentos formaram-se como padrões experienciados por vários místicos e que pela sua força foram como que catalogados. Uma espécie de cartografia mística que permite encontrar o caminho para experienciar a Baraka. Estes símbolos corporais estão impregnados de energia milenar (desde o séc. XII, com o Mestre Rumi) e funcionam como interruptores que permitem manipular a energia.
Com o tempo deixa-se de executar modelos aprendidos e intuitivamente nascem os nossos próprios interruptores. Deixamos a coreografia e entregamo-nos à verdade da alma. Os exercícios são só a parte tangível de um processo maior, unitário e individual. Aquilo que nos é revelado expande-se no corpo. A alma é alegre e vulnerável. Ela aceita tudo enquanto fonte de evolução e aprendizagem.

Mas nesta questão o que me parece mais relevante é se o sentimento despertado de alegria e vulnerabilidade é uma leitura do espectador ou também um estado em si, em que a alma do espectador anseia por aquela energia, pelo retorno à sua essência. Na minha humilde opinião só reconhecemos o que já conhecemos. É um espelho.

De entre os locais onde já actuou, qual a marcou mais e porquê? Onde encontrou a atmosfera mais propícia para o Giro Sufi?

A única atmosfera propícia para o Giro Sufi é o Amor. Tive momentos tão marcantes a girar na minha cozinha como em belos castelos e mosteiros… acredito que para o público não seja a mesma coisa…Mas foi no Mosteiro de Leça do Balio que senti pela primeira vez a Baraka (substrato da vida), numa das minhas “viagens” com o Nilson Dourado. Senti gratidão, euforia, muita vergonha, medo, desejo…Tanta, tanta coisa de forma tão diferente…Todos os meus sentidos se prontificaram para aquele momento…Tinha aberto uma porta e a partir daí a aceitação de tudo o que me esperava do outro lado, bom e mau, fez de mim uma convidada regular.

Falamos em 2. de uma certa dissociação do próprio corpo. O Giro Sufi é também meditação… Há um ponto fixo de equilíbrio a partir do qual todo o corpo gira, medita, e depois? Qual a sensação que se experimenta no fim?

Eu nunca falaria numa certa dissociação do próprio corpo. Para mim tal não faz qualquer sentido e parece-me até uma ideia muito conexionável com um forte enraizamento na memória colectiva de determinados conceitos das religiões puritanas. O corpo é o veículo de todas as sensações inclusivé da sensação de ausência de corpo. E isso tem a ver com leveza. A sensação nasce sempre no seio de um corpo-cérebro. Só um corpo bem enraizado experiencia plenamente sensações de flutuabilidade. Eu diria até que a maioria das pessoas vive todos os dias completamente dissociada do seu corpo, sem qualquer consciência do corpo no espaço, no tempo e em si mesmo. Amar o corpo é fundamental. A alma move-se por entre a pele traçando no corpo e no gesto partículas da personalidade e singularidade de cada um. A atitude do corpo no seu todo aparece como espelho da alma como expressão global da pessoa.

Há no Sama uma percepção muito diferenciada do corpo e, consequentemente, do movimento. A noção de tempo perde-se nesta dilatação e contracção de sensações e verdades. E com isso muitas vezes a noção do próprio corpo, mas na forma diária com que nos habituamos. Ele expressa a Alma e move-se na sua direcção, abraçando com o seu movimento a graça que lhe é oferecida. Tudo gira menos nós. Nós estamos estáticos diante daquilo que nos visita.
No fim eu sinto sempre Gratidão. Independentemente de sensações melhores ou piores da experiência, eu sou muito grata por toda a verdade que enche o meu coração.

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