«Jim», da Companhia Paulo Ribeiro, Teatro S. Luiz

Originalmente publicado em arte-factos.net, a 5 de Fevereiro de 2013.

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foto via Facebook @ciapauloribeiro

Is everybody in? The ceremony is about to begin.

Jim, da Companhia Paulo Ribeiro, passou pelo palco do S. Luiz Teatro Municipal entre os dias 1 e 3 de Fevereiro. Coreografar integralmente um álbum póstumo de Jim Morrison /The Doors, pôr bailarinos a fazer do corpo música e a cantar parece o conjunto ideal de elementos para que a peça seja arriscada. E é. Não poderia não o ser.

Paulo Ribeiro sobe ao palco como se em cada compasso carregasse nos seus ombros o peso da Humanidade, como diria Anne Teresa de Keersmaeker. Faz-se homem só, multiplicado pelas infraestruturas projectadas atrás de si. Suavemente surge Indigo de Bernardo Sassetti e naquele momento íntimo cada espectador está sozinho na sala. Não é apenas uma homenagem a Sassetti, que iria colaborar nesta peça, não fosse levado prematuramente. É também um prelúdio poético à revolução que se segue.

Jim é um conjunto de seis bailarinos – Anna Réti, Carla Ribeiro, Leonor Keil, Sandra Rosado, Avelino Chantre e Pedro Ramos – despegados, sem lei, na boémia interpretação de nada mais que não eles próprios. Há em Jim um espaço que os corpos criam e manipulam, que ora se estende para além do espaço físico em que dançam ora se contrai. Estamos num domínio virtual ao som de An American Prayer e concentramo-nos nos corpos fugazes capazes de tudo alterar organicamente, através do gesto e também da palavra.

A peça é composta por várias interrupções voluntárias, que ou nos obrigam a rir ou nos impelem a pensar. Os bailarinos cantam e dançam, completam as frases improvisadas do bailarino anterior, como se se tratasse de poesia ditada por Jim Morrison num concerto dos The Doors. Não se quer transmitir aqui uma mensagem estruturalmente pensada; quer-se antes dar ao público essa tarefa, para que os espectadores reflictam sobre aquilo que estão a viver, para perceberem que não são apenas espectadores de todos os caminhos que os levaram até ali.

Jim é questionar o presente resignado, a partir de um símbolo de uma época inebriada, festiva, para projectar um futuro que se quer revolucionário ou pelo menos diferente, necessariamente diferente. Jim é um novo ar, respirável, denso de desilusões. É o corpo utópico ou o corpo incorpóreo de Foucault, que se pode desenhar sob contornos fugazes, de alucinação, suavidade, rapidez ou calmaria. Cabe-nos a nós decidir, naquela irreverente utopia recheada de sensações.

Há várias relações do movimento dançado com a poesia falada, mas que não se julgue ser por isso uma peça representativa de Jim Morrison ou ilustrativa de An American Prayer, tal como Paulo Ribeiro afirmou em entrevista com Marisa Miranda.Nesta peça entrelaça-se a dimensão poética à dimensão política, em vários espectros das nossas vidas. «Did you know our life is ruled by TV» não nos deixa indiferentes. Urge questionarmos a massificação da informação, as suas consequências e os seus fins, numa sociedade que é cada vez mais liderada por princípios individualistas disfarçados de altruísmo.

Jim é um adiar o adiável, que o comodismo pode esperar.

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