«Um Saco e Uma Pedra – Uma peça de dança para ecrã», de Tânia Carvalho, Teatro Maria Matos

um saco e uma pedra

Incluída na retrospectiva dedicada à coreógrafa Tânia Carvalho, organizada pelo Teatro Maria Matos, o São Luiz Teatro Municipal e a Companhia Nacional de Bailado (CNB), estreia uma peça singular que baralha os conceitos de performance, dança, teatro e imagem – incluindo ainda uma orquestração ao vivo por um quarteto de cordas e percussão. Um Saco e uma Pedra começa por interpelar  o público a partir da sinopse algo críptica, que dá conta de uma peça de dança que se torna consciente da sua existência, encontra um saco e uma pedra e decide ir ao cinema. Logo aqui, e apesar da indicação de personagens na ficha técnica, poderia dizer-se que a grande personagem é o próprio filme.

O aspecto visual da composição causa imediatamente algum assombro, apresentando um ambiente retro, alicerçado na estética do cinema mudo, misturando-a com elementos teatrais e circenses. Acompanhando as imagens a preto e branco projectadas na tela, os músicos interpretam uma composição original de Diogo Alvim (colaborador de longa data da coreógrafa), uma obra contemporânea e perfurante que, a espaços, sacode o espectador embalado pela cadência dos movimentos. Esses funcionam como uma espécie de partitura do acompanhamento musical – e não o inverso – guiando as variações da própria música. A dança alia-se às técnicas do teatro físico, mesclando a graciosidade dos movimentos dançados com a mímica, a postura acrobática e a expressão facial. Mais do que com os corpos, os bailarinos dançam com as expressões, formando quadros visualmente poderosos e inquietantes. O jogo progride com alterações de focagem, transformando os bailarinos em formas e os movimentos em nuvens dançantes, criando uma ambiência espectral e onírica. Ao longo de 50 minutos, o “vamos imaginar” que abre a proposta impressa na folha de sala dá lugar a todo o tipo de especulações narrativas. Desde cedo se desfaz a promessa de uma arquitectura linear, que vemos substituída por quadros estáticos ligados por sequências de movimento, ao longo da peça repetidos numa lógica claramente geométrica, num eterno retorno ao ponto de partida.

É especialmente notória nesta peça a vasta gama de influências de Tânia Carvalho e a assumida multidisciplinariedade que caracteriza o seu trabalho, muito marcado pelo design gráfico (aqui particularmente visível no desenho dos figurinos, de Aleksandar Protic), pelas artes plásticas e pela primazia da música (também aqui existe uma preocupação clara com o aspecto musical, que a coreografa entende como fundamental e prefere original e liberto de memórias e associações prévias). Contudo, poderá talvez dizer-se que o território que domina Um Saco e uma Pedra é o cinema: a linguagem cinematográfica e a noção de plano e enquadramento. É a câmara, no exercício de realização, que conduz o sentido estético e estabelece um propósito narrativo sinuoso, que troca a linearidade pela sugestão. Jogando com a projecção, onde os bailarinos dançam perante uma câmara fixa, a coreografia brinca com os planos cinematográficos, que vão do plano aberto ao plano detalhe, e é através deles que faz dançar as imagens, por meio de aproximações e afastamentos que alteram o enquadramento, ora dissipando a inteligibilidade cénica ora trazendo à boca de cena pormenores dos corpos ou grandes planos dos bailarinos.

Apenas a dedução e o reflexo emocional permitirão a construção de uma narrativa, mas esse processo é secundário perante a contemplação de um objecto híbrido, que entrega a dança com recurso a dispositivos de expressão artística muito diversos. A consciência da dança que a sinopse refere é uma percepção idiossincrática (“vamos imaginar?”), formada em cada um por via do mistério e do espanto. Uma vez mais, Tânia Carvalho atesta a fluidez dos seus mecanismos criativos, que a reafirmam como uma criadora em permanente ruptura com os limites formais da linguagem do movimento. É talvez esse rasgo que melhor define a criação artística – e não apenas na dança.

Um Saco e Uma Pedra – Uma peça para ecrã (2018)

Argumento e Realização: Tânia Carvalho; Direcção de Fotografia e Edição: Christo Roussev; Composição Musical: Diogo Alvim; Intérpretes Musicais: Hugo Paiva, Joana Cipriano, Ana Pereira, Ana Filipa Serrão, Fernando LLopis Mata; Desenho de Luzes (em rodagem): Christo Roussev, Zeca Iglésias; Assistência à rodagem: Pietro Romani; Montagem e operação de luzes (em rodagem): Zeca Iglésias; Conceito de Figurino: Tânia Carvalho; Figurinista: Aleksandar Protic; Interpretação: André Santos, Bruna Carvalho, Bruno Senune, Claudio Vieira, Jácome Filipe, Leonor Hipólito, Luís Guerra, Petra van Gompel, Ramiro Guerreiro.

 

Até 4 de Março, Tânia Carvalho é homenageada com um Ciclo dedicado aos seus 20 anos de carreira, organizado pelo Teatro Maria Matos, Teatro São Luiz e Teatro Camõe/CNB. Vislumbres de 20 anos a fazer orquéstica no reverso das palavras (uma lentidão que parece uma velocidade) oferece um olhar sobre o percurso da coreógrafa, com um programa interdisciplinar que inclui um conjunto de peças já apresentadas, a estreia do filme coreografado, uma criação recente com o Grupo Dançando com a Diferença, o projecto participativo Movimentos Diferentes e uma nova criação para a Companhia Nacional de Bailado.

Autor: Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra. Psicóloga. Cinéfila. Vive em Lisboa.

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