«S», de Tânia Carvalho, Teatro Camões

Recém-nomeado director artístico da Companhia Nacional de Bailado (CNB), Paulo Ribeiro convidou Tânia Carvalho a colaborar com a companhia enquanto primeira coreógrafa por ele programada. Foi nesse contexto que nasceu S, espectáculo apresentando em estreia absoluta no Teatro Camões, no âmbito do ciclo de homenagem à coreógrafa organizado pelo Teatro Maria Matos, o São Luiz Teatro Municipal e a CNB.

Diz Tânia Carvalho que esta nova criação parte de uma ideia de tributo a Marie Taglioni (1804-1884), primeira bailarina a utilizar em cena as famosas sapatilhas de ponta. Aliás, o título da peça terá sido inspirado em La Sylphide, bailado romântico de 1832 onde o objecto apareceu pela primeira vez nos pés da bailarina, produzindo desde então uma verdadeira revolução na arte de dançar – abrindo portas a uma nova estética, novas formas de execução técnica e também a um novo nível de exigência. Não será portanto de estranhar que a ambiência de S se faça de uma mistura de elementos contemporâneos e clássicos, presente na ambivalência dos movimentos dos bailarinos mas também nos figurinos, nas sequências coreográficas, no cenário e até na música de Diogo Alvim (uma composição contemporânea com alusões pontuais a uma sonoridade clássica), interpretada ao vivo pela Orquestra Sinfónica Portuguesa.

É o desenho sinuoso da letra S que parece guiar os quadros formados pelos três grupos de bailarinos: o primeiro composto por um trio de bailarinas românticas (com figurinos brancos e longos, como os das ninfas de La Sylphide), o segundo formado por seis bailarinas modernas (de fato preto colado ao corpo, com um dos braços a descoberto) e o terceiro por um quinteto de intérpretes masculinos cujos figurinos sugerem uma intersecção entre o passado e o presente. Os grupos começam por surgir em separado – em frente a uma tela gigante concebida por Rui Vasconcelos – cada um deles propondo, na sua linguagem, diferentes formas de desenho corporal para o S do título, ora de forma mais classicista, ora mais contemporânea. Quando finalmente reunidos em palco, os três grupos descobrem uma linguagem nova, uma espécie de síntese do contemporâneo e do clássico, que se constrói por meio de movimentos em espiral, ora dissimétricos ora em serpentina – desenhando os S não apenas com os corpos, mas também através das sequências de movimentos. Por fim, surge um dueto final em que o par de bailarinos, Miyu Matsui e Kilian Smith, condensa esse idioma novo no seu pas de deux.

S
foto: Bruno Simão

Este novo trabalho, para além de lindíssimo, parece levar mais longe a versatilidade de Tânia Carvalho, introduzindo uma novidade expressiva nos seus códigos habituais. S – de Sapatilha de ponta, de Sinuoso, de Serpentina e de Sequência – sugere uma fusão de estilos muito apelativa que homenageia a complexidade e o rigor do clássico, colocando-o em lugar de destaque numa criação contemporânea. A sapatilha de ponta, símbolo máximo do ballet clássico, é aqui o denominador comum, o dispositivo de ligação entre o passado e o presente e também uma espécie de protagonista – pudesse a dança libertar-se do peso do seu formalismo, de uma certa intransigência ou de adereços supérfluos, sem abdicar da expressividade simbólica das pontas: a possibilidade de elevação do corpo, o virtuosismo da técnica, a poesia das formas.

S (2018)

Coreografia e figurinos: Tânia Carvalho; Composição Musical: Diogo Alvim; Interpretação Musical: Orquestra Sinfónica Portuguesa; Direcção Musical: Nuno Coelho Silva; Desenho para Tela: Rui Vasconcelos; Desenho de Luz: Mafalda Oliveira e Tânia Carvalho; Interpretação: Artistas da CNB (Miyu Matsui, Kilian Smith, Catarina Lourenço, Leonor de Jesus, Patricia Main, Maria Barroso, Gonçalo Andrade, Andreia Mota, Shlomi Miara, Inês Ferrer, Aeden Pittendreigh, Beatriz Williamson, Ricardo Macedo, Filipa Pinhão, Miguel Esteves e Anyah Sid.

 

Até 4 de Março, Tânia Carvalho foi homenageada com um Ciclo dedicado aos seus 20 anos de carreira, organizado pelo Teatro Maria Matos, Teatro São Luiz e Teatro Camõe/CNB. Vislumbres de 20 anos a fazer orquéstica no reverso das palavras (uma lentidão que parece uma velocidade) ofereceu um olhar sobre o percurso da coreógrafa, com um programa interdisciplinar que incluiu um conjunto de peças já apresentadas, a estreia do filme coreografado, uma criação recente com o Grupo Dançando com a Diferença, o projecto participativo Movimentos Diferentes e uma nova criação para a Companhia Nacional de Bailado.

Autor: Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra. Psicóloga. Cinéfila. Vive em Lisboa.

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