Não há atalhos para o coração: sobre “Chapter 3: The Brutal Journey of the Heart”, de Sharon Eyal & Gai Behar/ L-E-V, CCB

O Centro Cultural de Belém apresentou pela primeira vez em Lisboa a companhia L-E-V, fundada por Sharon Eyal (que integrou e colaborou com a companhia israelita Batsheva Dance Company) e Gai Behar.

Depois de OCD Love (2016) e Love Chapter 2 (2017), Chapter 3: The Brutal Journey of the Heart, que estreou na Ruhrtriennale – Festival das artes em Bochum, Alemanha, em 2019, dá continuidade a um trabalho de pesquisa, que se apresenta em forma de trilogia, baseada no poema “OCD”, de Neil Hilborn, que descreve o amor da perspetiva de alguém que tem transtorno obsessivo-compulsivo.

Para Sharon Eyal, o todo não é a soma das partes, “love is life, it’s the same” [“o amor é a vida, são a mesma coisa”] (disse em entrevista à Montpellier Danse 2021). Em Chapter 3… vemos aquela que será a última aba de um tríptico, que nos conta uma mesma história, que passa por várias fases. Assim como o coração. Enquanto OCD Love reporta a um amor-lacuna, à falta dele, e Love Chapter 2 explora um lado mais noturno do amor, a perda e a sua dor, revestidas de emoções fortes (esclarece-nos a folha de sala, à falta de termos testemunhado ao vivo estas obras antecessoras), Chapter 3… mostra-nos um lado mais leve, mais transparente do amor e das relações, ainda assim não menos complexo. Suportada pela seleção de músicas de Ori Lichtik, há qualquer coisa de leve — mas não leviana — nesta abordagem coreográfica. Está repleta de movimentos despretensiosos e orgânicos, que contrastam com uma base fortemente clássica, entre outras referências descontruídas: na batida solta e sambeira de Arto Lindsay, nas paisagens country de Pee Wee Hughes ou na densidade sonora de Ori Lichtik, pioneiro da cena techno de Tel-Aviv. Por muito díspares que possam parecer todas estas referências integradas numa mesma coreografia, Chapter 3… resolve de forma refrescante a complexa narrativa dos caminhos para o coração — onde não há atalhos.

Na abertura, encontramos um só corpo em palco, envolvido por um nevoeiro e uma sonoridade latina. O tronco mexe suavamente, encurvado, vulnerável e presente. Juntam-se então mais dois bailarinos e depois mais quatro. Na ausência de cenografia (dela também não sentimos falta), o foco está no contorno dos corpos nos figurinos assinados por Maria Grazia Chiuri/ Christian Dior Couture, que surgem como uma segunda pele, em que cada um tem traçado em si um caminho diferente até ao coração — esse, vermelho, desenhado no peito, que tem tanto de óbvio como de necessário e marcante.

Life was tailor made for our refreshment, ouvimos, enquanto nos envolvemos nos movimentos ondulares, ora individuais ora em grupo. You are one of those creatures who simply are/ Simply beyond why/ Simple as okay. Movimentos sincronizados/ dessincronizados são fortemente marcados pelo trabalho de tronco e ombros. Podemos constatar que já tudo foi inventado, quando percebemos que a novidade surge da mistura – de referências, de movimentos e de técnicas – o clássico com o contemporâneo, os ritmos latinos e as danças africanas, e por aí adiante. Mas não vamos pelas caixinhas, até porque há tanto de primitivo e ritualístico na dança como no amor. E de repente podíamos estar a assistir a um grupo num qualquer club, ao som de música techno. Cada um na sua, mas onde às vezes se interesecta, se encontra, interage, cria imagens. Lembrei-me de quando, em 2019, no contexto de um festival de música electrónica, recebi de João Botelho a mais sublime das lições de dança: “Sabes como é que se dança música electrónica? Divides o corpo ao meio. A parte de baixo marca o ritmo e a parte de cima dança a melodia”.

Chapter 3… organiza o movimento sob o desenho de luz de Alon Cohen, que viaja por diferentes tonalidades, de azuis, rosas, vermelhos, verdes, tal como, imagino, flutuam os humores do coração. E pergunto-me a que cor corresponderá cada um desses humores. Até que um movimento lento e orgânico, como que suspenso no tempo, quebra o ritmo techno. E este corpo colectivo dança em uníssono, como um só órgão, criando uma plasticidade que, no final do espetáculo, nos deixa leves, bem-dipostos. Como se o corpo se dividisse, de facto, ao meio. E só o coração permanecesse inteiro.

Chapter 3: The Brutal Journey of the Heart, de Sharon Eyal & Gai Behar/ L-E-V, com música de Ori Lichtik, desenho de luz de Alon Cohen e interpretação da companhia L-E-V, foi apresentado dias 4 e 5 de Novembro, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

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