Dar o salto: TERPSI, de Andreia Mota

Terpsichore, musa da dança. A inspiração de que Andreia Mota, 26 anos, bailarina da Companhia Nacional de Bailado (CNB), precisava quando se viu obrigada, como tantos outros bailarinos profissionais, a ficar em casa sem data prevista para o regresso ao palco. Natural de Tomar, aos 13 anos chega a Lisboa para estudar na Escola Artística de Dança do Conservatório Nacional (EADCN). Em 2012, a convite da então Directora Artística, Luísa Taveira, integra o elenco da CNB.

Num ano particularmente desafiante para a área das artes performativas, Andreia Mota dá o salto e cria, de forma espontânea TERPSI, uma marca de dancewear, leia-se, roupa de dança, que nasce em Tomar, de regresso à casa dos pais, onde passou parte do tempo do confinamento. Foi lá, e na fábrica de confecção dos mesmos, que aperfeiçoou a costura e testou em si própria maillots e outros modelos. Na altura, não sabia ainda do sucesso que faria junto das suas colegas da CNB, que logo a encorajaram a criar uma marca própria.

Andreia Mota é a primeira empreendedora que entrevisto nesta nova rubrica, Dar o salto, que pretende dar a conhecer projectos nascidos no período de pandemia/confinamento. Porque às vezes, é precisamente nos contextos mais desafiantes, que é preciso dar um salto de fé.

Andreia Mota, bailarina da Companhia Nacional de Bailado e criadora da marca de dancewear TERPSI

“TERPSI – for comfortable movement” é o nome e lema da marca. Enquanto bailarina profissional, o conforto é a primeira característica que procuras na roupa de dança?

Sim, aliás, o conforto foi aquilo que me levou a começar a fazer maillots para mim, porque acho que o mais importante é sentirmo-nos confortáveis com o que temos vestido. Uma vez que grande parte do nosso dia é passado em maillot, collants e alguma roupa de aquecimento – sendo que o maillot acaba por ser aquilo que temos sempre vestido – caso seja desconfortável não nos vai fazer sentir bem e, consequentemente, não estamos bem connosco próprias para dançar. Portanto, sim, que o maillot encaixe no corpo perfeitamente foi aquilo que me levou a começar a criar; porque eu podia ir refazendo, e à medida que ia alterando coisas no molde, nos tecidos, na maneira de fazer, conseguia ir alcançando mais conforto e isso deixou-me fascinada, o facto de eu conseguir vestir um fato meu e pensar que estava a vestir mesmo uma segunda pele. Depois, à parte desse conforto, conseguir fazer desenhos e moldes bonitos e que nos façam sentir bem, foi espectacular.

No Instagram da TERPSI, podemos ler que esta marca nasceu do primeiro confinamento, em 2020, “num ambiente familiar e de afecto”. Como é que viveste esse período e como é que chegas à costura e à criação de dancewear? A costura já era um hobby?

Sim. Este projecto nasceu na primeira quarentena, mas é algo que vem de há já alguns anos e da família. Os meus pais têm uma fábrica de confecção e eu, desde pequenina, sei costurar o básico, mas tinha esta grande vontade de experimentar fazer maillots, pela razão óbvia, porque queria fazer para mim e experimentar fazer os meus próprios moldes. Assim que percebi que ia ficar em casa por bastante tempo e que não ia ter o dia todo ocupado com a dança, porque não dava, não havia condições para tal, e uma vez que estava em Tomar com os meus pais, decidi que era a altura ideal para experimentar e aprender com a minha mãe. De manhã, dedicava-me à dança e à tarde ia para a fábrica, para ao pé dos meus pais, que continuavam a trabalhar, e foi lá que aprendi, com eles, a cortar os tecidos, a fazer os moldes, todos aqueles pormenores de usar a máquina de costura, de mudar linhas, de mexer com o tecido. Foi espectacular, porque acabou por ser uma experiência dupla: aprender a fazer maillots e estar lá com os meus pais, a viver com eles, o que também já não acontecia desde os meus 13 anos, porque vim cedo para o Conservatório e deixei de viver em Tomar.

(…) a ideia era só divertir-me a fazer maillots para mim, mas realmente começou a ter outro impacto (…)

Andreia Mota
Adelino Mota e Fátima Pereira, pais de Andreia Mota a trabalhar, na sua fábrica em Tomar, Purple Splendid

 Já tinhas em mente criar uma marca ou veio por consequência, de forma natural?

Depois de já estar há algum tempo a testar e de já ter feito vários modelos para mim, decidi que era a altura de começar a experimentar em algumas colegas da CNB também, para perceber se os moldes estavam bem feitos, ou seja, se outros tamanhos que não o meu correspondiam a tamanhos reais e também para perceber, a longo prazo, como é que reagiam noutros corpos e com as lavagens, com o uso diário, perceber se aguentavam muito tempo, se se estragava alguma coisa. Foi muito giro, porque foi com elas, embora também já tivesse feito também alguma coisa para homens, que eu consegui ir aperfeiçoando o tamanho para cada uma, e perceber como é que o molde reagia em cada uma, que alterações eu tinha de fazer. Depois desses maillots – alguns foram elas que me sugeriram – e com essa junção de moldes que fui fazendo para treinar, decidi reunir todos e começar a vender a mais pessoas. Portanto, nada que tivesse pensado, a ideia era só divertir-me a fazê-los para mim, mas realmente começou a ter outro impacto, elas começaram a pedir-me mais e mais, gostaram bastante e estavam sempre a dar aquele incentivo e aquela força para fazer disto um negócio; então achei que, tendo tempo agora, porque não fazê-lo?

Acho que realmente podemos tirar muito disto e (…) quando voltarmos à normalidade, ter esta especial lembrança do que aconteceu, do que isto nos ensinou e nos levou a fazer.

Andreia Mota

Tens colecções de básicos, com várias cores e modelos, e uma colecção limitada, The Arts Collection, inspirada em figuras da cultura portuguesa, como Manoel de Oliveira, Ana Lacerda, Amália Rodrigues, entre outros. Onde encontras a tua inspiração?

Nesta altura, decidi realmente fazer estas duas colecções. Os primeiros maillots são aqueles que fiz mais no início e o que me levou a fazê-los foi realmente serem aqueles que me apetece usar em qualquer dia. Seja qual for a disposição com que estou, há modelos que gosto sempre de usar e por isso comecei a fazer esses, os modelos básicos. Foi daí que cresceu essa colecção, Daily Basics. São maillots mais simples de fazer do que os da outra colecção e, consequentemente, têm preços mais acessíveis. Jogando com as cores, os padrões e os tecidos, conseguimos fazer modelos muito giros e que nos dão jeito a qualquer altura, daí o lema dessa colecção ser “less is more”. Em relação à outra colecção, a que demos o nome de The Arts Collection, é mais desafiante de confecionar e, por isso, decidimos elabora-la. Toda esta ideia de a identificar com as artes surgiu mais tarde, quando já tinha os modelos feitos e queria preparar a sessão fotográfica. Queria que a sessão tivesse algum sentido, não queria simplesmente fazer fotos de ballet e, portanto, decidi, a partir dos modelos que já tinha e que queria pôr nesta colecção, procurar as sete artes, as sete mais reconhecidas, digamos. Os modelos já existiam e da ideia de fazer a sessão fotográfica nasceu a de identificar as artes e artistas portugueses e a partir daí a escolha de cores inspirada nelas. Quis criar maillots com as cores que me pareciam mais adequadas e me inspiravam mais para cada uma das sete artes. Por exemplo, na dança queria fazer um maillot que me lembrasse a Ana Lacerda e simbolizasse aquele maillot que ela usava de mil formas e feitios.

Alguma novidade em que estejas a trabalhar e possas revelar?

Sim, há varias novidades a sair. Já saíram as leggings e calções para mulheres, que também usamos bastante. No futuro, ainda vem uma colecção masculina, que vai ter leggings, calções, leotards de homem, camisolas de licra, que também se usam bastante no ballet, e vem aí uma quantidade de novidades que irei expor devagarinho, passo a passo. A minha principal profissão é ser bailarina, isto é um hobby e, como tal, eu vou ter de ir gerindo o meu tempo, de forma a não acumular encomendas a que não consiga dar andamento, porque sou só eu a gerir tudo isto.

O que é que este período que estamos a viver te mostrou ou ensinou?

Este período ensinou-me, acima de tudo, que não temos qualquer tipo de controlo sobre aquilo que a vida às vezes nos traz e, de repente tínhamos milhares de planos que não puderam acontecer de maneira nenhuma, porque um factor maior se impôs. Isto também nos faz perceber a não-importância que temos. Às vezes pensamos que o mundo gira à nossa volta, que as coisas têm de acontecer de certa forma, que temos de atingir isto e aquilo, mas não, se calhar não, se calhar só podemos fazer se estiver tudo bem à nossa volta e se calhar não somos assim tão importantes. Isto foi óptimo para nos pôr se calhar um bocadinho no nosso lugar, para tentarmos olhar mais à nossa volta, ver mais as outras pessoas, perceber as outras pessoas e se calhar não pensarmos só em nós. Acho que já tinha uma abertura muito grande para este tema, ou seja, já era uma coisa a que tinha muita atenção no dia-a-dia, mas deu para reflectir mais e perceber melhor. Em relação à dança, foi muito difícil, porque realmente desde pequeninos que o nosso dia-a-dia é a dançar de manhã à noite e nunca tivemos uma interrupção tão grande, no máximo tivemos férias de 1 mês, na escola, mas nunca tanto tempo e, de repente, ficámos parados. Foi um choque muito grande para os nossos corpos, mentalmente e, sendo artistas, acho que tentar criar projectos novos e tentar usar a nossa criatividade, faz com que consigamos melhor lidar com a situação, porque é realmente um assunto que para a nossa profissão é muito frágil. A nossa profissão é muito pequena, a nossa carreira é muito curta e isto faz-nos perder um tempo precioso nas nossas vidas. Acho que realmente podemos tirar muito disto e tudo o que desejamos agora é voltar à normalidade e, quando voltarmos à normalidade, ter esta especial lembrança do que aconteceu, do que isto nos ensinou e nos levou a fazer.

Qual consideras ser o papel das artes, e da dança em particular, num período como o que estamos a viver?

A arte podia ter um papel muito mais importante do que está a ter nesta pandemia. Infelizmente, não há recursos para que a arte se possa expor de outra forma nesta pandemia, mas já percebemos que, como em todas as artes, está a ser muito sentida a sua falta, por toda a gente, por quem a dança, por quem a vê, por quem a segue de perto, porque isto é uma inspiração, isto inspira-nos como artistas e, às pessoas que vão ver, está a fazer falta, está a fazer muita falta. Penso que poderia haver muito mais resoluções em específico para as artes, podíamos ter muito mais formas de nos expressar, com todas as restrições que existem e fazê-lo de forma segura. Somos, assim, postos num grupo a que não é dada a devida importância, porque se assim fosse, como é por exemplo, dada ao futebol em Portugal, já teria havido outras maneiras de gerir a situação, de forma a que pudéssemos estar a fazer espectáculos e seguir as nossas carreiras. Mas acho que, dentro de tudo o que aconteceu, conseguimos manter as aulas em casa, fazer tudo o que podíamos para manter a nossa forma para, assim quem tudo isto estiver impecável, voltar ao palco, que é aquilo que nos deixa felizes e que nos faz sentido. Por isso, dançar para toda a gente é um sonho que está para breve, outra vez. LC

TERPSI – for comfortable movement

Instagram: @terpsi_dancewear

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