A nossa memória é o povo que dança

Estreada na Expo ’98, Memórias de Pedra. Tempo Caído, de Paulo Ribeiro, ganhou uma segunda vida no arranque da programação da recém-criada Casa da Dança em Almada, subindo ao palco do Auditório Fernando Lopes-Graça do Fórum Municipal Romeu Correia. Parece-me duplamente apropriado, não só pela sua dimensão tão portuguesa e popular, mas por ter sido este o primeiro espectáculo estreado pela Companhia Paulo Ribeiro no Teatro Viriato em Viseu, aquando do início da sua residência artística naquele espaço. São sincronismos que fazem desta peça uma espécie de marcador-do-tempo no repertório de Paulo Ribeiro, agora responsável pela Casa da Dança depois da direcção artística do Teatro Viriato, do Ballet Gulbenkian e da Companhia Nacional de Bailado.

Memorias do Tempo
© Divulgação / Companhia Paulo Ribeiro

Com uma montagem quase fiel à versão original (teaser) e uma nova geração de bailarinos em palco – Ana Moreno, Guilherme Leal, Joana Lopes, Małgorzata Suś, Rafael Oliveira e Sara Garcia, acompanhados de Romulus Neagu (o único que dançou a versão original) em Memórias de Pedra. Tempo Caído bailam as idiossincrasias de um Portugal que muito mudou nos últimos 20 anos – ou talvez não tanto assim.

Ao som dessa harmonia evocativa, o passado mistura-se com o presente nesse lugar mental a que chamamos memória.

As variações de Vitor Rua que acompanham a peça, revisitando passagens do Hino Nacional revestindo-as de novos ritmos e sonoridades, acomodam-nos a uma atmosfera familiar, onde pairam ainda as cantigas tradicionais das Beiras, a chula de Trás-os-Montes ou mesmo grandes hits da música popular portuguesa. Ao som dessa harmonia evocativa, o passado mistura-se com o presente nesse lugar mental a que chamamos memória: uma colecção de imagens a preto-e-branco projectadas ao fundo do palco (filmadas na região de Viseu) e os movimentos dos bailarinos, numa interpretação clara e pintural do gesto, retratam aspectos ligados ao interior e à terra, ao nosso temperamento dramático, à religiosidade, aos hábitos e costumes que nos traduzem.

memorias2
© Divulgação / Companhia Paulo Ribeiro

Por vezes de forma caricatural e jocosa (Tchan, tchan, Tchan-tchan!) de outras mais directa, rapazes ou varões empertigados, mulheres antigas ou jovens, desfilam em procissão, entregam-se a actos de trabalho, devoção e penitência, à labuta da lavadeira, ao baile mandado, à folia da festa popular. Nas vozes dos bailarinos, recordam-se os aisdo povo, o feitiço do Cante ou o choro da carpideira … e de repente um arraial, um funeral ou uma tourada, num espectro afectivo que se desdobra em cada quadro criado, da melancolia da saudade à alegria despreocupada. Estaremos a vaguear? Se cada observador entender coisas diversas, talvez até ausentes dos desígnios do coreógrafo ou para lá deles, significará tão-só que o propósito é alcançado: um soçobro na portugalidade gravada em cada um, composta de lembranças pessoais e referências partilhadas, ao mesmo tempo tão concreta e indizível. Esta memória – feita de pedra, porque constante e resistente – passeando-nos pelos olhos e ouvidos, relembra-nos do que nos faz portugueses. O tempo, caído, não pode abater-se sobre a intemporalidade própria daquilo que é único na cultura de um país.

Memórias de Pedra. Tempo Caído (2019)

Concepção, coreografia, direcção e espaço cénico: Paulo Ribeiro; Interpretação: Ana Moreno, Guilherme Leal, Joana Lopes, Małgorzata Suś, Rafael Oliveira, Romulus Neagu e Sara Garcia; Música original: Vítor Rua, Excertos de “A Portuguesa” de Alfredo Keil e de diversas músicas tradicionais portuguesas da Beira Baixa e Beira Litoral; Montagem da banda sonora: Vítor Rua/Paulo Ribeiro; Vídeo: João Pinto/Vojta Dukát – TATRA ART; Fotografias em “still”: Vojta Dukát – TATRA ART; Montagem de vídeo: João Pinto/Vojta Dukát – TATRA ART/Paulo Ribeiro; Adaptação e Operação vídeo: Tomás Pereira; Figurinos: Companhia Paulo Ribeiro; Desenho de Luz: João Paulo Xavier/Paulo Ribeiro; Adaptação e Operação de luz: Cristóvão Cunha; Sonoplastia: Vítor Rua; Apoios e financiamento: Município de Viseu.

Imagem de destaque: © José Alfredo / Companhia Paulo Ribeiro

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