“The White Crow”: o pássaro que veio do frio

the white crow
©Divulgação / via imdb.com

Белая Ворона (Corvo Branco/ Belaya Vorona)
Expressão utilizada para descrever um indivíduo invulgar,
extraordinário,
diferente dos outros, um outsider.

Rudolf Nureyev (1938-1993) foi um dos mais celebrados bailarinos do século XX, responsável por uma verdadeira revolução nos papéis masculinos tradicionais no ballet clássico. A sua vida tem sido objecto de documentários diversos, pelo que tardava o biopic que agora nos chega pela mão de Ralph Fiennes. Nele, podem reconhecer-se características de Nureyev que permaneceram no imaginário colectivo: o bailarino invulgar, electrizante, avesso a regras. O deslumbramento pela figura de Nureyev não se prendia com a sua técnica impecável (ao contrário de Vaslav Nijinski, seu mais aclamado antecessor), mas com o seu magnetismo em palco (é-lhe atribuída a frase célebre: “A técnica é um óptimo recurso quando não se tem inspiração”). Depois dele, não mais os bailarinos se limitariam a papéis de suporte – na época, a bailarina era sempre a estrela maior – passando a brilhar por direito próprio.

Terceira realização de Fiennes, com argumento de David Hare (As Horas e O Leitor) a partir da biografia Rudolf Nureyev: A Life“, de Julie Kavanagh, The White Crow (O Corvo Branco) recorda a primeira digressão de Nureyev a Paris com o Ballet Kirov (hoje Ballet Mariinsky) em 1961. Se a viagem teria por objectivo político a afirmação da supremacia soviética na dança e noutras áreas da cultura, os de Nureyev seriam outros. Ambicioso e fascinado pelo ocidente e pelas possibilidades que oferecia de visibilidade (faz imediatamente amizade com vários bailarinos e intelectuais franceses, perde-se na vida nocturna, nos concertos e nos museus), aproveita a situação para pedir asilo político, com a ajuda da amiga Clara Saint (Adèle Exarchopoulos), evitando assim o regresso à União Soviética. Encarada como uma dissidência, a opção de Nureyev teve enorme impacto internacional e é hoje um corolário da biografia do “bailarino desertor” que abandonou o seu país para triunfar no ocidente.

Depois de Nureyev, não mais os bailarinos se limitariam a papéis de suporte – na época, a bailarina era sempre a estrela maior – passando a brilhar por direito próprio.

Com várias analepses, o filme dá ainda conta do seu nascimento durante uma travessia transiberiana, da infância de pobreza na pequena cidade soviética de Ufa e dos primeiros anos de treino em Leninegrado sob mentoria de Alexander Pushkin (Ralph Fiennes), bailarino e professor que mais tarde treinou Mikhail Baryshnikov. Na época, apesar do seu carácter rude e desagradável (o filme retrata-o até com benevolência tendo em conta a biografia acima referida), apaixona-se por Teja Kremke, bailarino alemão que teria sobre ele um enorme ascendente pessoal e artístico, ao mesmo tempo que se envolve com Xenia (Chulpan Khamatova), mulher de Pushkin, responsável por uma espécie de aurora sexual inadvertida (de resto, Nureyev nunca escondeu a sua orientação sexual).

the white crow
© Divulgação / via goodtimes.sc

A estrutura do filme é algo problemática, já que os constantes flashbacks nem sempre são imediatamente identificáveis e acabam por gerar confusão (o filme em nada perderia se os acontecimentos fossem apresentados de forma cronológica). Já o retrato sociopolítico é claramente ocidental, uma lente incapaz de evitar uma mão-cheia de trivialidades sobre a União Soviética e a Guerra Fria (a própria fotografia do filme produz um enorme contraste entre Paris e a então Leninegrado), embora não relativize a opção de Nureyev e os seus verdadeiros intuitos, que não teriam sido políticos, mas pessoais. Por outro lado, The White Crow beneficia de algumas (poucas) belas cenas de dança pelo bailarino ucraniano Oleg Ivenko, que tem aqui a sua primeira experiência como actor. No entanto, ele não possui o mesmo engenho na representação: A composição da personagem é demasiado mecânica e sem fluidez, fazendo com que as características menos positivas de Nureyev (a ambição extrema, a arrogância, a vaidade, o egocentrismo) emerjam de forma algo repentina e pouco convincente.

Não se trata, portanto, de uma biografia completa. The White Crow debruça-se na juventude de Nureyev e exclui todo o posterior trajecto, o estrelato internacional, as relações amorosas com outros bailarinos (Erik Bruhn, Robert Tracy) e o seu falecimento, vitimado pela SIDA, com apenas 54 anos. Mas apesar das limitações, o filme contextualiza os primórdios do percurso de uma figura de talento singular sem abdicar dos aspectos mais salientes da sua personalidade, e aguça a curiosidade sobre os diversos factos da vida do lendário par de Margot Fonteyn que aqui não são abordados. Com pena, falta-lhe o fundamental. Falta-lhe fogo e dança, e nada caracterizaria melhor a figura em análise.

O Corvo Branco

Género: Drama, Biopic
Data de estreia: 31/08/2018
Título Original: The White Crow
Realizador: Ralph Fiennes
Actores: Oleg Ivenko, Adèle Exarchopoulos, Chulpan Khamatova, Ralph Fiennes, Alexey Morozov, Raphaël Personnaz, Olivier Rabourdin, Ravshana Kurkova, Louis Hofmann, Sergei Polunin, Maksimilian Grigoriyev
Distribuidora: NOS Audiovisuais
País: Reino Unido, França, Sérvia
Ano: 2018
Duração (minutos): 127

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