Luísa Taveira: «A minha grande ideia era ser escultora e ainda hoje adoro a plasticidade de um corpo.»

A postura e as mãos expressivas denunciam-na. Percorreu os palcos do mundo e fez alguns dos palcos portugueses encherem-se do mundo inteiro. Luísa Taveira, antiga bailarina e antiga diretora artística da Companhia Nacional de Bailado (CNB), é atualmente membro do conselho de Administração do Centro Cultural de Belém (CCB), após ter sido nomeada, em novembro de 2016, pelo Ministro da Cultura, Luís Filipe de Castro Mendes. Ainda assim, como a qualquer grande artista, surge a incontornável pergunta acerca dos primeiros passos – de dança –, daquilo que a fez querer ser bailarina.

© Rodrigo César, Teatro Camões, 2010

Os primeiros passos

«A minha grande ideia era ser escultora e ainda hoje adoro a escultura grega e a plasticidade de um corpo. E isso já tinha a ver com a dança, era já do meu interesse e já me chamava à atenção». E a dança, a dança chegou cedo: «Era muito nova, andava na escola primária e a minha companheira de carteira, que agora é arquiteta – não tem nada a ver com dança –, tinha ido para uma escola de dança e tinha umas sapatilhas. E eu achei que também queria fazer ballet. O ballet sempre foi uma atividade que as meninas praticavam. E quando fui para a escola do Pirmin Treku, um professor basco que estava no Porto e que tinha sido um grande bailarino, calcei umas sapatilhas de meia ponta, devia ter oito ou nove anos, e aquilo para mim foi uma coisa maravilhosa. As sapatilhas de ponta já foi mais tarde, com supervisão do professor. Devia ter 11 anos».

Secretamente, aos 16 anos, aconselhada pelo mesmo professor, fez uma audição para a Royal Ballet Upper School, em Londres, e foi aceite.

Terminou o secundário, no Porto, onde nasceu, em junho de 1974, no alvor da democracia. Chegou a casa e advertiu os pais que seria a Royal ou serviço cívico a vigiar as praias da Foz, uma vez que a faculdade para a qual se tinha candidatado não iria abrir para os primeiros anos. Os pais, hesitantes a princípio, foram-se habituando à ideia. «O meu pai até costumava dizer, com alguma piada, “Dance is such a slippery profession”. [“A Dança é uma profissão tão escorregadia.”]»

«Fui fazer o curso de dança em Inglaterra, com uma colega. E foi uma situação bastante dura, porque, na altura, não havia bolsas para ninguém e não se podia mandar dinheiro para fora… Mas a partir daí os dados estavam lançados, nunca mais olhei para trás. E os meus pais perceberam que já não havia recuo possível».

Terminado o curso, saiu da escola para a Companhia Nacional de Bailado. Em 1977, fez audição ainda em Inglaterra, juntamente com alguns dos membros do primeiro elenco da CNB, que tinha imensos bailarinos de nacionalidade inglesa. «Levei os meus colegas de turma à audição. Passámos de Londres para Lisboa». Na primeira temporada da CNB, interpretou «Odete» no bailado O Lago dos Cisnes, o que lhe deu oportunidade de, mais tarde, interpretar todos os papéis principais do repertório clássico e neoclássico e de chegar a bailarina principal da Companhia.


O palco, no início de cada espetáculo, era o sítio onde eu queria estar, sempre.

Luísa Taveira

«O que mais gostava nos dias de espetáculo era que o espetáculo começasse. Até lá, aquele ritual que tinha de cumprir era muito doloroso. Aquela sensação de espera é desagradável e os bailarinos têm de se ocupar: ensaiar, fazer uma aula, aquecer, coser sapatilhas, arranjar-se ou ir à massagem. Para um bailarino solista o fundamental é estar muito, muito calmo. Tinha um amigo que me dizia sempre que é muito mais produtivo estar-se preparado psicologicamente do que fisicamente para fazer um espetáculo». Recorda que no bailado Tema e Variações, de George Balanchine, o bailado mais difícil que dançou a nível técnico, quando olhou para o tutu, estava todo a abanar, «a tremer por todo o lado». Mesmo assim, assertiva e com o maior dos sorrisos, afirma: «Quando o espetáculo começava havia ali um peso que me saía de cima, era um alívio. O palco, no início de cada espetáculo, era o sítio onde eu queria estar, sempre».

O bailado que mais gostou de dançar foi Giselle. «Equilibrava a técnica com toda a parte teatral. Depois fiz outros contemporâneos que também gostei imenso de fazer, mas talvez a Giselle mais, por ser tecnicamente mais leve. Quando um bailado é tecnicamente mais fácil, não há tanta preocupação técnica e usufrui-se muito mais dos momentos. Quando um bailado é muito técnico, a concentração de um bailarino é quase só na parte técnica, para que a receita saia toda direitinha».

Mesmo para uma bailarina principal há momentos mais slippery, como diria o pai. Uma bailarina tem uma dor e uma lesão nova todos os dias para se entreter, apesar de a carreira de Luísa Taveira ter sido «uma carreira com imensa sorte».

«Tive muito poucas lesões ao longo da minha carreira, embora tenha tido uma muito grande. Um dia escorreguei, bati com a parte da frente do joelho no chão e o perónio saltou da articulação e ficou visível e saliente na minha perna. Felizmente, agarrei-me ao joelho com tanta força que o meti-o no sítio, de tão aflita que fiquei».

Recorda, por outro lado, um solo que fez no Parque das Estátuas, ao ar livre, em Castelo Branco, numa das digressões nacionais da Companhia. O palco estava montado em cima de um lago, o público estava muito longe e, com as luzes, mal o conseguia ver. «Durante a tarde, caiu uma trovoada e uma chuva imensas e andou toda a gente a limpar o palco, para ver se não escorregávamos. Estávamos a fazer o segundo ato do Lago e os Carmina Burana, era um perigo. E num dos meus solos, numa pirouette com o corpo para baixo, quando voltei para cima, estava virada para a feira, de costas para o público. Acabei o solo completamente ao contrário e saí pela colisse oposta àquela que devia ter saído – e logo a seguir devia entrar no mesmo sítio por onde devia ter saído. Só quando voltei ao palco é que me apercebi. Não me lembro do que é que fiz, mas correu tudo bem».


© Rodrigo Ferreira; Luísa Taveira em Lago dos Cisnes, 1987

Com o decorrer do tempo, com o estatuto de bailarina solista que adquiriu, só lhe era requerido realizar apenas três temporadas na Companhia. O tempo que lhe sobrava, passou-o a percorrer os palcos do resto do mundo. A temporada de 1986, na África do Sul, em pleno Apartheid, na primeira companhia de dança multirracial, a NAPAC Dance Company, começou por ser um destino de férias, que terminou num contrato de um ano: «Quando íamos a estados mais conservadores da África do Sul, tínhamos de esconder o pianista que era indiano ou uma bailarina que era negra, porque eles não podiam ficar no hotel».

Em 1988, decidiu ir bater à porta do Ballet Gulbenkian: «A minha formação é clássica. Quando fui da Companhia para o Ballet Gulbenkian, já estava cansada do repertório clássico, que, ainda por cima, não é muito grande. Queria coisas novas, queria uma nova maneira de me mexer, queria uma nova dramaturgia. Hoje em dia, depois de ter visto e de ter feito não sei quantas Belas Adormecidas e não sei quantos Lagos dos Cisnes, já não os consigo ver mais. É como se lesse o mesmo livros vezes sem fim».

Outras coreografias para uma bailarina

Entretanto, depois de ter interrompido a sua careira em prol da maternidade, começou também a dar aulas na Escola de Dança do Conservatório Nacional (EDCN), chegando mesmo a pertencer à direção.

«É uma responsabilidade. Os alunos eram a minha responsabilidade. Não quer dizer que não tenha gostado, gostei bastante, mas, olhando para trás, o trabalho mais difícil que fiz foi esse, ser professora. É um trabalho que não dependia só de mim, dependia de tudo aquilo que era assimilado e, habituada como estava a ser bailarina e a ter controlo sobre aquilo que eu e o meu partner fazíamos, encontrava-me perante um percurso de paciência. Um professor de dança diz uma vez, faz uma vez e é quase por exaustão que se encontra uma resposta da parte do aluno».

Foi professora de repertório, de técnica de dança clássica e foi também responsável pelos espetáculos finais da EDCN, que decorrem, ainda hoje, no Teatro Camões.

«Nas aulas de repertório queria-se que os alunos ganhassem noção de trabalho em conjunto, que soubessem quase respirar todos ao mesmo tempo, como se faz na música. Numa aula de técnica era diferente. Tentava que os alunos se apercebessem do seu próprio corpo. É das coisas mais difíceis de fazer. A maior parte dos alunos de dança só adquire a noção exata de todas as partes do corpo mais tarde. Há erros técnicos que se fazem porque ainda não se tem noção ou ainda não se sente bem aquela parte do corpo».

Anos mais tarde, num atelier de dança, com pessoas mais velhas, Luísa Taveira apercebeu-se da dimensão deste problema: «Havia atores com 70 ou 75 anos e percebi que aquelas pessoas tinham vivido dentro de um corpo que não conheciam e que não sabiam o que aquilo era. A consciência com que se fica do corpo, depois de se ter feito dança, é uma coisa muito pouco vulgar em pessoas que não façam dança».

Em 1996, convidada por Jorge Salavisa, tornou-se vice-diretora artística e depois diretora artística da CNB.

«Passados quatro anos, achei que queria outras coisas da minha vida. Nessa altura, convidaram-me para vir para o CCB, onde estive 10 anos como programadora. Primeiro só de dança, depois fui acumulando dança, teatro e orquestras, até que cheguei a adjunta de programação. Continuava ainda no Conservatório, mas o CCB deu-me a oportunidade fantástica de conhecer o mundo inteiro e tudo aquilo que se estava a fazer a nível da dança contemporânea e do teatro».


É preciso situarmo-nos no nosso tempo e, por outro lado, ter em conta o público que se tem e o que se quer vir a ter, os bailarinos da companhia e o orçamento. É com bases nestas frentes todas que uma pessoa não programa aquilo que quer, mas sim aquilo que pode.

Luísa Taveira

Em 2010, criou a ‘Companhia Maior’, uma companhia de dança para maiores de 60 anos. E decorrendo completamente desta iniciativa, tirou o mestrado em Gestão Cultural, «Práticas Culturais para as Cidades», na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, tendo sido a sua tese precisamente acerca da criatividade que se pode ter numa idade maior.

E a vida dá sempre uns saltos, como apontou satisfeita: «Passados 10 anos, convidaram-me para a direção artística da CNB». Como responsável que foi pela programação, Luísa Taveira reforça que é preciso ter sempre em mente a progressão da arte na atualidade: «Se fizer uma Bela Adormecida, não pode ser como foi feita originalmente, porque ninguém iria gostar de ver. É preciso situarmo-nos no nosso tempo e, por outro lado, ter em conta o público que se tem e o que se quer vir a ter, os bailarinos da companhia e o orçamento. É com bases nestas frentes todas que uma pessoa não programa aquilo que quer, mas sim aquilo que pode. Ou seja, posso gostar muito de pôr em cena uma determinada peça, mas os meus bailarinos não estão prontos, ou ter os bailarinos prontos, mas não ter orçamento que chegue para comprar os direitos daquela peça. Tudo isto é muito complicado de gerir e requer escolhas constantes».


Cada pessoa vai ver uma peça com níveis de conhecimento diferentes, com capacidades diferentes de fazer ou não associações. Não se pode generalizar (…) É preciso é dar a ver, dar a sentir e a perceber, sem necessidade de explicar.

Luísa Taveira

As últimas programações que fez para a CNB associavam bailados a poetisas portuguesas. Luísa Taveira revela que, com a associação, não queria dizer nada, não havia mensagem nenhuma que quisesse transmitir ao público. «O público, esperamos, são muitas centenas de espetadores, todos diferentes. Cada pessoa vai ver uma peça com níveis de conhecimento diferentes, com capacidades diferentes de fazer ou não associações. Não se pode generalizar, porque se acabaria por fazer tábua rasa e optar por mostrar aquilo que é menos interessante. É preciso é dar a ver, dar a sentir e a perceber, sem necessidade de explicar. Sempre achei que a poesia e a dança eram disciplinas muito parecidas, pelo ritmo, pela sensibilidade, por um lado etéreo, mas, ao mesmo tempo, terreno. Sempre tentei fazer esta ligação com outras artes: convidei encenadores, convidei dramaturgos, artistas plásticos e a fatia da palavra casava perfeitamente com a poesia. Não escolhia os poemas como ilustrações das peças, mas sim para as completar. Faziam sentido para mim. Mas mesmo isso, não tem nenhum recado. Era apenas uma escolha artística».


A partir do momento em que senti que tinha de deixar de dançar e que decidi que iria parar depois daquele espetáculo, nunca mais senti saudades, nunca mais fiz uma aula. Acabou.

Luísa Taveira

A conversa foi já no Centro Cultural de Belém, no seu gabinete, virado para os jardins de Belém, com a Ponte 25 de abril ao fundo.

Quando a pergunta sobre a despedida da dança e sobre a saudade surgiu, respondeu sem hesitar, com a determinação que a caracteriza: «Não foi nada difícil o fim. Foi muito fácil deixar de dançar. A partir do momento em que senti que tinha de deixar de dançar e que decidi que iria parar depois daquele espetáculo, nunca mais senti saudades, nunca mais fiz uma aula. Acabou. Tinha tantos outros interesses que não me fez mais falta, fechei aquela gaveta. E até costumava fazer aulas todos os dias, religiosamente, e no dia em que decidi deixar, nunca mais fiz uma aula na vida, nunca mais fiz um plié. Só faço pliés porque tenho de subir escadas, mas conscientemente, nunca mais fiz».

Entrevista realizada em maio de 2017, no âmbito da cadeira de Produção Jornalística da licenciatura em Ciências da Comunicação (NOVA/FCSH) e adaptada para o LES CORPS.

Este artigo foi escrito ao abrigo do Novo Acordo Ortográfico.

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