«Olhos Caídos», de Tânia Carvalho, Teatro Camões

Fotografia © Bruno Simão - CNB 2018
Fotografia © Bruno Simão – CNB 2018

Imagine – se quiser, escolha – um dos seguintes cenários:

1. Num futuro distante, dois seres antropomorfos encontram-se na superfície lunar. Exploram, com os braços e pernas, a atmosfera que os rodeia, como se pretendessem furar a textura de ruído branco que se ouve em fundo. Comunicam através de uma linguagem própria. Uma fossa luminosa parece atraí-los para o abismo – ou para um vórtice temporal.

2. No presente, um mimo entretém um grupo de crianças que assiste, ora assustada ora divertida, a um dueto desconexo do intérprete com a sua própria sombra.

3. Num cineteatro antigo, foram deixados ao abandono, dentro de num armário empoeirado, duas marionetas articuladas que de repente ganham vida. Primeiro uma, depois a outra, adquirem consciência do seu estado anímico e da aflição do espaço estreito em que circulam. Imitam-se uma à outra, debatem-se com os limites do armário que habitam, espantam-se e sofrem com a sua clausura.

Em Olhos Caídos (2010), coreografia de Tânia Carvalho exibida em reposição no Teatro Camões (inserida no ciclo que o Teatro Maria Matos, o São Luiz Teatro Municipal e a Companhia Nacional de Bailado lhe dedicaram nos meses de Fevereiro e Março), não existe uma narrativa linear servida como primeiro prato, mas apenas (e como de costume) um conjunto de símbolos e pistas a partir dos quais o espectador pode organizar um sentido. Existem apenas dois bailarinos em palco, Marta Sobreira e Miguel Ramalho, interpretando uma composição expressionista, de explicação aberta, unicamente amparada pela iluminação e banda-sonora de Diogo Alvim. Desenhado no chão, um quadrado de luz separa os bailarinos dos limites do palco, parecendo impedi-los de avançar – ou de cair. Os movimentos dos braços, angulares e rígidos, ora rápidos ora lentos, surpreendem pela precisão e pela técnica.

A assinatura dos trabalhos de Tânia Carvalho raras vezes foge desta ausência de narrativa e de personagem ou deste cruzamento evidente entre mecânica e elegância, traduzida num estilo coreográfico rigoroso e geométrico onde tudo parece ser meticulosamente cogitado. Para o público, é um desafio assistir a uma peça tão liberta de amarras interpretativas, alargando o espaço mental dedicado à apreciação visual da coreografia, ao mesmo tempo impelindo-o à invenção de uma história que possa ajustar-se às imagens.

Se assim quisermos ver, Olhos Caídos parece atravessar o tempo em pouco mais de 30 minutos.

Olhos Caídos (2010)

Coreografia: Tânia Carvalho; Composição Musical: Diogo Alvim (Distância, Ocupação 3); Desenho de Luz: Anatol Waschke; Remontagem: Luís Guerra; Interpretação: Artistas da CNB (Marta Sobreira e Miguel Ramalho).

 

Até 4 de Março, Tânia Carvalho é homenageada com um Ciclo dedicado aos seus 20 anos de carreira, organizado pelo Teatro Maria Matos, Teatro São Luiz e Teatro Camõe/CNB. Vislumbres de 20 anos a fazer orquéstica no reverso das palavras (uma lentidão que parece uma velocidade) oferece um olhar sobre o percurso da coreógrafa, com um programa interdisciplinar que inclui um conjunto de peças já apresentadas, a estreia do filme coreografado, uma criação recente com o Grupo Dançando com a Diferença, o projecto participativo Movimentos Diferentes e uma nova criação para a Companhia Nacional de Bailado.

Autor: Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra. Psicóloga. Cinéfila. Vive em Lisboa.

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