«27 Ossos», de Tânia Carvalho, Teatro S. Luiz

27 ossos
foto: Margarida Dias

A mão humana tem 27 ossos e 35 músculos. O lado esquerdo controla o lado direito do corpo; e o lado direito do cérebro controla o lado esquerdo do corpo.

Sobre um dos seus trabalhos mais notáveis, a criadora Tânia Carvalho, diz-nos indirectamente, através da folha de sala, que “a memória da pianista” é “representada pelas mãos”; “a memória dos bailarinos” representada “pelos pés.” Afinal, não só as mãos, epicentro do tacto e condutor da arte ou sexo, têm 27 ossos. Os pés também os têm, numa espécie de reprodução quadrúpede defeituosa, que nos torna… bípedes.

Nós, espectadores, representados pelo vulto à Ceifeira bergmaniana, manifesta-se enquanto críptico semblante negro, personificação clássica do Teatro de maiúscula – algo tão abstrato, tão de tradição xamanística, que pelo ritual vê vincada no rosto feições de careto. Haverá melhor representação de um molde tão amorfo, tão cheio de vício e juízo – o espectador zero, padrão, aquele que é e não é, que toma volume indiferenciado para que haja rigor e propósito em palco?

No Teatro São Luiz (haverá teatro mais bonito que tu neste país?) há celebração até Março. Revisitam-se os trabalhos da criadora, um ante outro.

Reconhecem-se caras, naquilo que chamarei de brio social de nata quase a sair de prazo. Caímos no esquecimento assim que o espaço se dissolve na fraca iluminação das saídas de emergência. Arte efémera, estamos todos, até ver, cá dentro de corpo e alma.

Interlúdios algures entre as combinações dos Power Rangers, de herança Kabuki, e o Rhythm Nation da Janet Jackson, numa nobre ancestralidade europeia, berço da democracia ateniense, voz do cidadão e silêncio dos escravos. O reformular sucessivo de nobres autores de tragédias; Antígona, Rei Édipo, vultos de luz e sombra edipianos, esgares de Sófocles, consagração de Eurípedes.

Um “toy piano” aristocrata pelas mãos ora cirúrgicas, ora possuídas pela fatalidade do erro (se propositado, ou não, só a mente da senhora sabe a que velocidade de sinapses o seu cérebro traduz os padrões rítmicos para a mecanização humana dos dedos.) Estará calejada de génio? Terá Joana Gama apólice de seguro para tão belo instrumento biomecânico? Para o vosso escriba, mero leigo nestas andanças, a criação de Gama situou-se num campo neutro de perspectiva cavaleira entre Cage, Bartók, ou Richard D. James das peças de piano preparado de Druqks e, last, but not the least, quiçá, sapateado de Nídia Minaj ou Nigga Fox da Princípe.

A anti-urgência e repetição de 27 ossos, sucessivos refrões e interlúdios (ou serão capítulos, ou serão actos?) despertara em mim um ponto de fuga libertino nas coxas maleáveis dos dançarinos, aquele que de Braga passa por Lisboa. Estala-se outra sinapse em cefaleia de sinusite. Volto a ser ateu baptizado católico com escárnio de Sousa Lara.

 

27 Ossos (2012)
Coreografia e Direção: Tânia Carvalho; Toy piano: Joana Gama; Bailarinos: Luís Guerra, Luiz Antunes e Vânia Doutel Vaz; Música: Diogo Alvim; Figurinos: Aleksandar Protic; Caracterização: Tânia Carvalho; Direção técnica e Desenho de luz: Zeca Iglésias; Assistente: Pietro Romani; Produção: Tânia Carvalho; Produção (até Dez 14): Bomba Suicida; Produção executiva e Difusão: João Guimarães; Apoios: Direção Geral das Artes/ Governo de Portugal; Rencontres Chorégraphiques Internationales de Seine-Saint-Denis (première), O Espaço do Tempo, Cine Teatro S. Pedro e Teatro Viriato;                    
Coprodução: O Espaço do Tempo
 

Até 4 de Março, Tânia Carvalho é homenageada com um Ciclo dedicado aos seus 20 anos de carreira, organizado pelo Teatro Maria Matos, Teatro São Luiz e Teatro Camõe/CNB. Vislumbres de 20 anos a fazer orquéstica no reverso das palavras (uma lentidão que parece uma velocidade) oferece um olhar sobre o percurso da coreógrafa, com um programa interdisciplinar que inclui um conjunto de peças já apresentadas, a estreia do filme coreografado, uma criação recente com o Grupo Dançando com a Diferença, o projecto participativo Movimentos Diferentes e uma nova criação para a Companhia Nacional de Bailado.

 

Autor: Nelson P. Ferreira

Nelson Ferreira é ninguém e como tal existe.

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