«O Lago dos Cisnes», pela CNB, Teatro Camões

O Lago dos Cisnes
foto: Bruno Simão / CNB 2017

O bailado mais conhecido e dançado de todos os tempos regressa este mês ao palco do Teatro Camões, encerrando as comemorações dos 40 anos da Companhia Nacional de Bailado. Foram já muitas as ocasiões em que os cisnes pisaram aquele linóleo, agora vestidos por José António Tenente e numa versão coreográfica de Fernando Duarte, inspirada na coreografia icónica de Marius Petipa e Lev Ivanov, criada em 1885 para a apresentação do espectáculo no Teatro Bolshoi de Moscovo. Nesta nova versão do clássico, a música de Tchaikovsky é interpretada pela Orquestra Sinfónica Portuguesa (direcção do maestro Pedro Neves) e dançada num cenário cinematográfico: as imagens de Edgar Pêra em pano de fundo, por vezes criando um ambiente onírico, noutras funcionando como representação em filme de elementos da mise-en-scène, ilustram os quatro actos da peça.

O Lago dos Cisnes
foto: Bruno Simão / CNB 2017

O que faz d’ O Lago dos Cisnes uma obra tão estimada? Desde logo a trama que, para além de contar uma história de amor, comporta uma dimensão encantatória com qualquer coisa de belo e também de terrível – o destino trágico do jovem príncipe Siegfried e da sua amada. Pressionado pela mãe para casar, Siegfried apaixona-se por Odette, uma princesa transformada em cisne por um feiticeiro que a condena a viver no lago até que alguém lhe jure amor eterno. Enfurecido com o enamoramento de Siegfried e Odette, o perverso Rothbart envia a sua filha Odile – cujas semelhanças com Odette são assustadoras – a uma festa no palácio. Siegfried, sem se aperceber da fraude, declara-lhe o seu amor e pede a sua mão em casamento. Quando Odile se revela, o príncipe fica desesperado e procura por Odette, mas a maldição já não pode ser quebrada. Os apaixonados atiram-se ao lago, ficando assim unidos na morte.

O bailado abarca, por isso, temas universais que apaixonam espectadores, jovens e menos jovens. A memória colectiva retém ainda a coreografia engenhosa de Marius Petipa, que estabelece uma perfeita ligação entre os corpos das bailarinas e os movimentos dos pássaros que a peça retrata, movimentos que habitam o imaginário de quem, nos palcos ou até na televisão, assistiu um dia a uma das inúmeras interpretações. Talvez por isso a reconstrução coreográfica de Fernando Duarte, estreada em Fevereiro de 2013 e agora reposta, tenha escolhido não se afastar demasiado da coreografia icónica de Petipa, mantendo os muitos pormenores reconhecíveis que contribuem para que a história seja facilmente apreensível na forma dançada. A introdução de elementos contemporâneos (o cinema de Edgar Pêra ou os figurinos cheios estilo de José António Tenente) renova a cada apresentação o interesse do público por uma obra decididamente intemporal – que é também uma grande produção e um espectáculo apoteótico: muito trabalho, muitos meios, luzes e figurinos, muitos bailarinos, e sobretudo para o par romântico, uma exigência técnica e artística enorme. Pode até dizer-se (como Darren Aronofsky tão bem notou no seu Black Swan), que o mais incontornável dos clássicos da história da dança é quase o epítome da essência do ballet clássico: persistência, sacrifício e busca obstinada da perfeição.

CNB
foto: Bruno Simão / CNB 2017

Apesar das incontáveis releituras e muitos estilos que há quase século e meio se apropriam desta narrativa, o público regressa à procura do que lhe é idiossincrático: o ondular dos braços/bater das asas dos cisnes, o alongamento dos seus pescoços, o romantismo dramático dos pas-de-deux da venezuelana Isadora Valero (Odette/ Odile) e do portugês Francisco Sebastião (Siegfried) ou as minuciosas especificidades dos trinta e dois fouettés de Odette/Odile – o rodopiar da bailarina em torno de um eixo fixo, a perfeição do rond de jambe, a rotação da cabeça. Este será, desde sempre, um dos momentos mais altos da peça, encarado como uma espécie de acrobacia artística que (a)testa o virtuosismo da bailarina principal. Por tudo isto, O Lago dos Cisnes é sempre sinónimo de casa cheia com uma plateia de todas as idades, um acontecimento que durante aquelas duas horas restitui ao ballet clássico uma merecida popularidade. O ballet clássico, com todo o seu rigor e formalismo, vive do respeito por uma tradição e necessita dessa reverência – dos bailarinos, dos coreógrafos e dos públicos.

Poderá assistir a O Lago dos Cisnes, pela CNB, no Teatro Camões até dia 22 de Dezembro. Saiba mais aqui.

Ficha técnica

Coreografia: Fernando Duarte; Filme: Edgar Pêra; Música: P. I. Tchaikovski; Interpretação Musical: Orquestra Sinfónica Portuguesa; Direcção Musical: Pedro Neves; Desenho de Luz: Nuno Meira; Interpretação: Filipa de Castro, Isadora Valero ou Miyu Matsui (Odette/ Odile) e Carlos Pinillos, Francisco Sebastião ou Lourenço Ferreira (Siegrfried), Artistas da CNB.

Autor: Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra. Psicóloga. Cinéfila. Vive em Lisboa.

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