«ANECKXANDER – Uma Trágica Autobiografia do Corpo», de Alexander Vantournhout e Bauke Lievens, CCB

Aquilo que foi apontado a Alexander Vautournout por Bauke Lievens (e certamente por outros antes dela) – as desproporções do seu corpo – é responsável pela acrescida reflexão sobre si mesmo, partindo da introspecção projectada pela sua anatomia, logo igualmente exteriorizada.

O trocadilho é simples, porém eloquente, um punchline de piada amarela sobre dimensões anatómicas que, noutro contexto, deram a Luisão a alcunha “girafa”. Aqui, assumindo o título do espectáculo (que se pôde presenciar no último dia de Novembro do presente ano no Centro Cultural de Belém), temos ANECKXANDER. Não será preciso quebrar a palavra para que entenda a primeira impressão que se extrai deste artista da escola circense, muito longe do embrutecer de animais enjaulados ou poeirentos palhaços patetas – perdoem-me os entusiastas do Circo de Mónaco durante o Natal.

O nível de conforto que Vautournout sente sobre o seu corpo só pode ser condensado numa palavra: domínio. Não que não houvesse erros de minúcia durante a coreografia, repetições para compensar a sincronização com um trecho do minimalista Arvo Pärt – compositor secular, posto pela Björk nos ouvidos e boca de inúmeros entusiastas que sacam discografias inteiras de coisas na berra por volta do Primavera Sound, mas que também curtem estudar a ouvir “música clássica” (que não é, ponto.) A espaços, a melodia desastrada, que não deixa de ser mesmerizante, tocada pelo próprio Alexander, num teclado encostado ao canto da black box, leva a que a metade da criação que se expõe (Bauke Lievens não toma espaço frente ao público) faça um exercício invejável de destreza e estética rítmica do mais honesto e belo que se poderia contemplar, boquiaberto.

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foto: © Milan Szypura

Depois de se despir – nu integral – Alexander vai acrescentando anexos ao corpo, para compensar o desnível e assimetria que a olho nu pouca gente repararia, tal é o físico escultural do artista. Enumere-se: botas com plataforma que fariam sucesso no ENTREMURALHAS; luvas de pugilismo da Decathlon (boa qualidade preço – podem começar a ser sponsors, certo?); um colarinho que ficaria um mimo num Pierrot de porcelana que os vossos pais tinham a olhar sobre eles nos anos 90, enquanto dormiam, mais assustadores que qualquer Annabelle. Parte do génio destes apêndices, ou vá, próteses, ou vá, extensões, passa por corrigirem a dismorfia de Alexander – membros curtos, tronco e pescoço alongados – no entanto, acabam por lhe dificultar a tarefa de repetir as coreografias, como se estivéssemos a testar-nos continuamente num Metal Gear Solid, desta feita em European Extreme. Pese algum custo, o criador é bem-sucedido e prova-se hercúleo a cada tombar, não de tentativa e erro, mas de ignorar a dor do impacto com uma resiliência olímpica.

Vantournhout quer que sintamos com ele.

Como animais pensantes, é natural, com o progredir da civilização em que nos inserimos, irmos perdendo os gestos, crepitares, impulsos e destreza sobre os maiores limites daquilo que nosso corpo permite. Quiçá, o trunfo de “ANECKXANDER” é mostrar o quão bizarro é o primitivo que ainda nos habita, se conseguíssemos recuperar, como Vantournhout, a maleabilidade que nos é possível. O alongamento do pescoço e o contorcionismo quadrúpede, por exemplo, que serve de contraponto à coreografia exuberante que um leigo facilmente identificará como “dança”, é tão visceral, que a dor e o alívio transcendem para os corpos que se formam na mente da plateia. Mesmo que uns estejam indiferentes, haverá quem partilhe tudo com o artista, projectando-se naquela intimidade de partilha.

Por fim, a segunda componente de raíz, não menos importante que a primeira, mesmo que mais impessoal, vital para sobressair o trágico e o cómico, é o design de luz de grande mérito. Recordemo-nos enquanto temos em nós vida do trecho em que pequenos focos se queimam e deles uma neblina densa serpenteia pelos focos de luz quente sobre o espaço negro. O êxtase visual é de cuspir adjectivos de enaltecimento uns atrás dos outros. É metafísico.

ANECKXANDER – Uma Trágica Autobiografia do Corpo

30 de Novembro de 2017, Centro Cultural de Belém

Criação Alexander Vantournhout & Bauke Lievens
Intérprete Alexander Vantournhout
Dramaturgia Bauke Lievens
Apoio dramatúrgico Dries Douibi, Gerald Kurdian
Visão exterior Geert Belpaeme, Anneleen Keppens, Lore Missine, Lili M. Rampre, Methinee Wongtrakoon
Desenho de luz Tim Oelbrandt, Rinus Samyn
Música Arvo Pärt
Figurinos Nefeli Myrtidi, Anne Vereecke
Fotografias Bart Grietens
Agenciamento Frans Brood Productions
Colaboração com Bauke Lievens no contexto do projeto de investigação Between being and imagining: towards a methodology for artistic research in contemporary circusfinanciado pelo fundo de investigação da KASK School of Arts, Gent (Bélgica).
Apoiado pelo Circus Next, um projeto europeu coordeado pelo Talents Cirque Europe, financiado com o apoio da Comissão Europeia.
Produção NOT STANDING asbl (Bélgica)
Coprodução Circus Next, Les Subsistances Lyon (França), Festival PERPLX Kortrijk-Marke (Bélgica), Festival novog cirkusa Zagreb (Croácia)
Residências Kunstencentrum Vooruit Gent (Bélgica), Circuscentrum Gent (Bélgica), CC De Warande Turnhout (Bélgica), Festival PERPLX Kortrijk-Marke (Bélgica), Centro Cultural Vila Flor Guimarães (Portugal), Les Migrateurs Strasbourg (França), Subtopia Norsborg (Suécia), CC De Spil Roeselare (Bélgica), La Brèche Cherbourg (França), Les Subsistances Lyon (França), STUK Leuven (Bélgica)
Com o apoio de Província da Flandres Ocidental, Governo Flamengo, Circus Next

Autor: Nelson P. Ferreira

Nelson Ferreira é ninguém e como tal existe.

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