«Polina, Danser Sa Vie» (2016), de Angelin Preljocaj & Valérie Müller

Polina

Primeira obra de ficção do aclamado coreógrafo contemporâneo Angelin Preljocaj e da mulher, Valérie Müller, Polina, Danser Sa Vie é um conto de descoberta pessoal relatado através da dança: Uma menina russa (heroína da novela gráfica homónima de Bastien Vivès, jovem prodígio da BD francesa), treinada desde tenra idade para ser uma grande bailarina clássica, descobre na dança contemporânea uma arte consentânea com a sua personalidade, como mulher e como artista.

Centrado na infância da protagonista, o longo prólogo é áspero na forma como exibe a austeridade exigida aos bailarinos clássicos, especialmente para uma criança de origens humildes na qual os pais depositam o sonho de brilhar no Ballet do Teatro Bolshoi. Polina (Veronika Zhovnytska) atravessa todos os dias os subúrbios nevados de Moscovo em direcção à escola de Bojinsky (Aleksey Guskov), um professor perfeccionista e implacável que lhe ensina (ou lhe impõe) que a vida do bailarino clássico é sinónimo de trabalho e obstinação: espelhar a graça, ocultar o esforço, dominar a angústia. Mas após a audição para o Bolshoi, onde é aceite, Polina (aqui já interpretada por Anastasia Shevtsova, bailarina do Ballet Mariinsky de São Petersburgo) assiste a um espectáculo de dança contemporânea e fica deslumbrada com aquela nova forma de expressão. Instintivamente viaja para a Europa para tentar a sorte na companhia da coreógrafa francesa Liria Elsaj (Juliette Binoche), descobrindo com ela um movimento livre e emotivo. Apesar das dificuldades com a nova linguagem, desapegada do código técnico de regras e passos a que está habituada, Polina é impelida a procurar uma identidade artística que se vai afastando do ballet clássico. De França para a Bélgica, conhece formas de dançar livres de formalismos, permitindo-lhe improvisar, interpretar, exteriorizar emoções – e recuperar, aos poucos, a espontaneidade que na infância lhe foi negada. Ao longo da viagem, os olhos de Polina transformam os gestos quotidianos observados em movimento dançado: pessoas passeiam na rua, um sem-abrigo rasteja nos corredores do metro, duas amigas encontram-se num abraço – será assim o mundo visto pelos olhos de um bailarino? Por fim, conhece Karl (interpretado por Jérémie Bèlingard, estrela do Ballet da Ópera de Paris), que a desafia a desenhar o seu próprio bailado. É aqui que Polina encontra a sua linguagem e uma marca autoral.

Coreografado por Angelin Preljocaj e filmado sem recurso a duplos (em particular, o segmento em que Binoche dança é a sua pièce de résistance), o filme fará as delícias dos amantes da dança, embora o drama subjacente à narrativa (as dores do crescimento) exceda o seu contexto específico. Refira-se ainda que os espectáculos de Preljocaj terão influenciado os desenhos da novela gráfica de Bastien Vivès, facilitando ao casal de realizadores o processo de dar vida ao traço minimalista a preto-e-branco do livro. No entanto, Polina – a menina que quis ser mais do que uma bailarina clássica – é um retrato algo convencional, incapaz de evitar uma visão maniqueísta e repleta de lugares comuns (a dureza sacrificial dos treinos, os pais inflexíveis, o professor ulta exigente). Mais do que criar um paradoxo escusado (ballet clássico vs. dança contemporânea), o filme mal disfarça uma atribuição de valor (a prisão vs. a libertação; o movimento antiquado e austero vs. a frescura da modernidade) que é no mínimo redutora – ignorando a metamorfose histórica que a dança atravessa desde os seus primórdios e menosprezando o contributo da técnica do ballet clássico para todas as correntes que se lhe seguiram. A mão Preljocaj na realização assegura a excelência e a beleza das cenas coreografadas (o filme culmina num lindíssimo pas-de-deux dançado na neve, interpretado por Anastasia e Bèlingard) mas dificilmente faz justiça ao seu objecto.

Autor: Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra. Psicóloga. Cinéfila. Vive em Lisboa.

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