«Dido e Eneias», de António Cabrita e São Castro, Teatro Camões

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foto: Bruno Simão / CNB

No espectáculo de abertura da nova temporada da Companhia Nacional de Bailado (CNB), um grupo concertado de bailarinos entrega a história de dois protagonistas. São Castro e António Cabrita voltam a interpretar um objecto complexo, desta vez envolvendo não apenas a palavra, a música ou a imagem, mas agora a voz cantada. O desafio lançado por Luísa Taveira, ex-directora da CNB, consistia em traduzir para a linguagem da dança contemporânea a ópera Dido e Eneias – primeira e única ópera do compositor barroco inglês Henry Purcell (1659-1695), que relata a breve e trágica história de amor entre a rainha de Cartago e o guerreiro troiano imortalizada na Eneida de Virgílio.

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foto: Bruno Simão / CNB

É ao som da ópera de Purcell que a dupla de coreógrafos faz mover os corpos em cena, expressando em movimento dançado uma narrativa intemporal e conferindo uma forma concreta e observável ao sofrimento, ao desespero, à hesitação e ao amor presentes no texto. Auxiliado pela simplicidade da cenografia, pelo magnífico trabalho de luz de Nuno Meira e pela colaboração de Gonçalo M. Tavares, o coro de bailarinos funciona como o pulmão da peça: respirando para lhe marcar o ritmo, expulsando e voltando a assimilar os protagonistas – Dido, Eneias, Belinda, Mercúrio, Júpiter – delimitando-lhes o espaço cénico, ilustrando-lhes os movimentos, reforçando os subenredos, ligando os segmentos da trama e unificando a narrativa. Os próprios figurinos de Nuno Nogueira, vestindo os bailarinos de forma similar e dificultando Há uma ideia de protagonismo aleatório subjacente à nota de intenções dos criadores: qualquer um de nós pode ser Dido ou Eneias a individualização das personagens, acentuam esse propósito comunitário, que descarta o solo em detrimento do colectivo e insiste na ideia de protagonismo aleatório subjacente à nota de intenções dos criadores: qualquer um de nós pode ser Dido ou Eneias. Como na ópera, é no Lamento de Dido que o espectáculo culmina, o corpo da bailarina (Henriett Ventura) a carregar todo o coro que a aprisiona, agrilhoado a seus pés e agrilhoando-a, rastejando atrás dela como que deixando um trilho do sofrimento da personagem caída em desgraça – Lembra-te de mim, mas esquece o meu destino. É um momento poderosíssimo que ilustra o dispositivo maior do trabalho dos criadores: Uma abordagem focada no rigor e na simplicidade.

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foto: Bruno Simão / CNB

A reinterpretação de uma obra clássica (teatral, musical, literária, fotográfica) é sempre um repto exigente, amiúde tentado e (diga-se) raras vezes conseguido, em muitos casos resultando em produtos anacrónicos nem sempre interessantes. E a dança é um território complexo, mais ainda se o propósito for expressar um objecto muitas vezes inacessível ao público: o texto cantado da ópera. São Castro e António optam pela singeleza habitual, permanecendo fiéis a uma metodologia que aborda o traçado coreográfico e a temática de uma forma honesta, sem artifícios desnecessários e sem os transfigurar num produto distinto da matéria-prima que os inspira: um movimento formal, quase intransigente e detalhadamente coreografado, que (d)escreve a narrativa como se os bailarinos fossem cantores da obra que se A dupla de coreógrafos compõe pela primeira vez para um colectivo de 24 bailarinos da CNB ouve em fundo e seguindo de perto o desenho melódico – funcionando em colectivo nos coros, em solos, duetos ou trios nas árias. No entanto, a coreografia não é directamente subjugada à palavra cantada – antes origina um relevo afectivo que a traduz. Esta ressonância emocional do movimento coreográfico, quando conseguida – que é o caso – reafirma o lugar da dança enquanto arte teatral e interpretativa, veículo de ideias e significados – ao invés de um objecto híbrido, de linguagem fragmentada e de apreensão difícil.

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foto: Bruno Simão / CNB

A dupla de coreógrafos compõe pela primeira vez para um colectivo de 24 bailarinos da Companhia Nacional de Bailado. Mas, contas feitas, a composição coreográfica de São Castro e António Cabrita tem já uma assinatura inconfundível – de tal forma que, embora não participem como intérpretes, é como se lá estivessem. A sua versão de Dido e Eneias reafirma o compromisso dos autores com uma teatralidade coreográfica que, sem impor modelos rígidos, excessivamente fluídos ou mesmo ausentes, permanece centrada na produção de sentido, não abdicando do seu propósito em detrimento da espectacularidade ou da surpresa – neste rigor reside o verdadeiro assombro. Pode agora dizer-se, em definitivo, que determinaram a sua linguagem artística e encontraram a sua marca autoral no universo da dança contemporânea nacional: uma assertividade criativa.

Ficha técnica

Direcção e coreografia: São Castro e António Cabrita; Assistência à dramaturgia: Gonçalo M. Tavares; Música: Henry Purcell; Dido e Eneias, The English Concert & Choir, Trevor Pinnock; Figurinos: Nuno Nogueira; Cenografia; F. Ribeiro; Desenho de luz: Nuno Meira; Interpretação: Artistas da CNB.

Autor: Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra. Psicóloga. Cinéfila. Vive em Lisboa.

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