«Rule of Thirds», de António Cabrita e São Castro, Culturgest

Originalmente publicado em arte-factos.net, a 7 de Abril de 2016.

ruleofthirds@2x
foto: António Cabrita

No palco, três bailarinos recriam uma fotografia icónica de Henri Cartier-Bresson, na qual três indivíduos contemplam o recém-erguido muro de Berlim. Não há movimento, apenas esta memória congelada que luta por uma outra forma de expressão. Foi essa procura que inspirou António Cabrita e São Castro neste novo trabalho que, à semelhança de Play False, busca os elos de ligação – mas sobretudo as pontes e transições – entre duas linguagens distintas. Se em Play False (Prémio SPA 2015 para melhor coreografia) a dupla de criadores explorou a relação entre a palavra shakespeariana e dança, em Rule of Thirds investiga agora a deslocação da linguagem da fotografia para o movimento coreográfico.

rule of thirds
foto via goo.gl/WUi2Pn

Directriz básica da fotografia, rule of thirds é uma fórmula que divide a imagem em nove partes iguais através de duas linhas horizontais e duas linhas verticais. A regra postula que os elementos da composição devem ser colocados ao longo destas linhas ou nos seus cruzamentos, criando pontos de referência facilitadores do enquadramento e posicionamento harmónicos do objecto retratado. De certa forma, a regra pode aplicar-se do mesmo modo a qualquer outro processo de composição: um desenho, um quadro, um filme. Como aplicá-la à dança? Ao contrário dela, a fotografia implica uma representação instantânea da realidade, algo que por um lado cristaliza no tempo um momento real ou imaginado e, por outro, delega ao poder da imaginação um eventual desenvolvimento da situação retratada. Essa possibilidade de descoberta do movimento a partir do disparo do obturador terá sido a porta de entrada para esta criação, uma peça para quatro bailarinos (além dos próprios criadores, os jovens Margarida Belo Costa e Luís Malaquias) que procura reflectir sobre as diferenças formais do acto criativo na fotografia e na dança, devolvendo ao objecto fotografado as características e emoções humanas que a fotografia colocou em suspenso. Rule of Thirds distende as situações retratadas por Cartier-Bresson a uma realidade contingente mas dinâmica, imprimindo-lhes uma dimensão temporal (de passado, presente e futuro) e uma espessura tridimensional que se move, respira e evolui. Para além do movimento, outros ingredientes contribuem para esta mutação: a música (da autoria dos próprios criadores), a iluminação (manuseada em palco pelos próprios bailarinos, também ela a desenhar trajectos, molduras, formas e sombras) e a ausência de cenografia a impor um ambiente pintando a preto-e-branco que aos poucos vai vestindo uma narrativa. Este estudo comparativo de duas formas de expressão tão distintas denuncia de imediato uma desigualdade fundamental, que pode no entanto ser vista num contínuo: a fotografia, enquanto ferramenta paralisadora do real, confere uma dimensão de eternidade ao seu objecto – ao contrário da dança, que permanentemente o manipula e transfigura.

rule of thirds
foto: Carlos Pereira

De uma forma mais simples, poderá dizer-se que Rule of Thirds revive as fotografias de Cartier-Bresson dando-lhes uma existência que emerge do imaginário dos coreógrafos. Mas o trabalho de Cartier-Bresson é apenas o pretexto desta viagem, que progride em vários segmentos – solos, duos ou trios – cada um deles investigando a transformação do objecto fotografado num objecto dançável. A nível coreográfico, começa a poder identificar-se uma assinatura no trabalho de António Cabrita e São Castro. Como em Play False, encontramos um movimento contemporâneo muito técnico, quase intransigente, minuciosamente construído, que se alicerça na repetição de linhas coreográficas breves e joga de forma equilibrada com três níveis de trabalho – chão, intermédio e altura. Este último é um aspecto claramente diferenciador da dupla de coreógrafos e especialmente relevante nesta criação: são os três níveis em que se dança que produzem a geometria do espaço cénico que, de uma forma automática, desenham na retina do espectador as tais linhas de enquadramento fotográfico.

Num dos primeiros segmentos da peça, um solo paradigmático de São Castro recria uma espécie de boneca articulada que, reagindo a um manuseio invisível, se move num contínuo de movimento e pausa. Um conceito vem imediatamente à memória: stop motion, ou movimento parado. Trata-se de uma técnica, muito usada no cinema de animação, que utiliza a disposição sequencial de fotografias diferentes de um mesmo objecto para simular o seu movimento. Em termos fisiológicos, a técnica funda-se no fenómeno de persistência retiniana: ao captar uma imagem, o olho humano demora uma fracção de segundo para a esquecer, e assim, quando diversos fotogramas nos são apresentados a uma velocidade superior a 16 por segundo, o cérebro liga-os instantaneamente e a ilusão do movimento é produzida. Aqui, cada fotograma é oferecido pela qualidade do movimento da bailarina, de incríveis precisão e detalhe: a fotografia transforma-se, ganha vida e dá a conhecer (o resto de um)a história por contar.

Autor: Edite Queiroz

Nasceu em Coimbra. Psicóloga. Cinéfila. Vive em Lisboa.

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