«Mozart Concert Arias», de Anne Teresa de Keersmaeker, pela CNB

Originalmente publicado em arte-factos.net, a 28 de Abril de 2014.

CNB
foto: Rodrigo de Souza

Estreou na passada quinta-feira, 24 de Abril, Mozart Concert Arias – Un Moto di Gioia, de Anne Teresa de Keersmaeker (ATKM), dançada pela Companhia Nacional de Bailado (CNB).

Já anteriormente apresentada em Portugal, no Teatro S. Luiz, em 2006, mas pela companhia de ATKM, Rosas e estreada em absoluto em 1992, em Bruxelas, aquando de uma residência artística no Théâtre de la Monnaie,esta obra – que dança o amor, na sua angústia, complexidade e fúria – mostra que a dança não se esgota no tempo.

Anne Teresa já nos tem habituado a uma dança cadenciada e de estética minimalista (veja-se, por exemplo, Four Movements to the music of Steve Reich, 1982 e En Attendant, 2010), e foi sob essa forma que nos chegou Mozart Concert Arias no corpo da Companhia Nacional de Bailado. Uma obra que se situa no confronto do clássico com o contemporâneo (e vice-versa), não poderia, no entanto, evitar brocados coloridos (nos figurinos de Rudy Sabounghi), um pianoforte (nas mãos de João Paulo Santos), e debruçar-se sobre hipérboles amorosas, onde o drama, a angústia e o desespero passional estão no epicentro da temática das árias escolhidas para este espectáculo.

Toda a dança parte de num cenário (de Herman Sorgeloos) que funde um salão de baile e um jardim, e onde sopranos se envolvem também numa atmosfera híbrida em que música e dança, orquestra e bailarinos formam um só elemento coerente. Aquando da criação de Mozart Concert Arias, Anne Teresa de Keersmaeker disse: “Para mim a questão decisiva permanece sempre a mesma: ‘Que movimentos para que música?’, e a parte mais importante do trabalho é a de encontrar e depois desenvolver o vocabulário gestual adequado à obra que abordo.” (como apresentado na folha de espectáculo). Todo o significado da obra coreográfica, segundo Keersmaeker, dá-se quando aquilo que se apresenta não é meramente uma representação dançada da música ou uma ornamentação musical para a dança, mas algo mais profundo. É aqui que se coloca também a questão da liberdade de movimento e, simultaneamente, de uma reflexão mais atenta daquilo que se propõe ao público.

CNB
foto: Rodrigo de Souza

Uma certa irreverência da coreógrafa é deliberadamente demonstrada nesta composição, pelo lado mais humorístico e inesperado com que é delineada: o jogo de sedução entre bailarinos, a interacção das sopranos (Carla Caramujo, Eduarda Melo e Kamelia Kader) com a dança e de bailarinos com as sopranos. Também a provocação de uma bailarina na recusa de ser igual às outras, numa dança disco que se dá num contraste propositadamente non sense que parece invadir o espectáculo livremente dançado; e, por fim, o choro frenético e infindável – semelhante ao de um bebé, parábola ao que de primitivo e ou ridículo há no amor – de alguém que procura perdidamente um ou um de perdição e que é constantemente rejeitado, tal como dizem as árias.

A criação de ATKM partiu de Ch’io mi scordi di te?/Que eu me esquecesse de ti? e daí seguiram toda as restantes árias (mais de dez); a CNB contou uma vez mais com a interpretação musical da Divino Sospiro (orquestra portuguesa especializada em música barroca, fundada em 2003), sob direcção de Massimo Mazzeo. Paralelamente ao que Augusto M. Seabra designaria por “tratado das paixões da alma” (em 2006, sobre a obra de Mozart e a propósito deste mesmo espectáculo), neste palco vive-se uma sátira ao amor no constante balanço entre alegria e tristeza, obsessão e abandono. Afinal, “Peças de concerto, as árias de Mozart, não deixam de ser também pequenos dramas”, segundo Augusto M. Seabra (também em 2006).

Como Cristina Peres observou (sobre ATKM, na folha de sala), “a sua dança sempre procurou um movimento para uma música” e na construção frásica e cénica de Mozart Concert Arias, Anne Teresa de Keersmaeker faz uma evocação histórica que nos remete para o século XVIII, mas põe-na ao serviço daquela que é uma visão contemporânea das relações humanas. Talvez daí também a teatralidade de alguns movimentos, primeiramente desenhados para a sua companhia, Rosas, e agora interpretados pela CNB, no seu regresso a Lisboa.

Mozart Concert Arias- Un Moto di Gioia é apresentado até dia 10 de Maio, no Teatro Camões, em Lisboa. Dia 29 de Abril celebra-se o Dia Mundial da Dança – fica aqui uma sugestão para a sua celebração. Mais informações na página da CNB.

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