Conversa com Olga Roriz sobre «A Cidade»

Originalmente publicada em arte-factos.net, a 11 de Outubro de 2012.

JARDIM-INVERNO-COR

Há sítios em que te sentes em casa, que sentes fazerem parte de ti. Para mim, os bastidores de um teatro em vésperas de estreia de um espectáculo são um deles. Quando juntamos a isso uma conversa descontraída com uma das maiores bailarinas e coreógrafas portuguesas, só desejamos poder lá ficar eternamente…

A dois dias da estreia absoluta de A Cidade, falámos com Olga Roriz, no auditório do Teatro Camões, durante as preparações do espectáculo. Uma conversa que viajou para lá das cortinas do palco…

A vida na cidade, uma rotina coreografada. Mais do que um espectáculo, Olga Roriz apresenta-nos uma reflexão sobre o quotidiano citadino, abordando questões de (perca de) tempo, (falta de) espaço, pertença e não pertença, anonimato, pressão. Enfim, o (des)encontro de indivíduos naquele que é um espaço partilhado de vivências.

Não houve um ponto de partida específico para a criação desta peça, uma inspiração,…o texto da sinopse, datado de 4 de Agosto do presente ano, foi o início de todo o processo criativo. Mas qual o intuito deste espectáculo? No fundo, abranger um conjunto de «reflexões sobre o ser humano, sobre o seu estar, o seu viver», que evoca a questão de sermos «muita gente, mas estarmos sozinhos».

Já em PETS, que esteve em cena em Outubro de 2011 no Teatro Camões, vemos uma intenção reflexiva sobre a cidade, atendendo a questões de privado/público, inércia/azáfama, rotina, solidão, mas A Cidade é «mais rico de intenções e personagens». Estão apenas quatro bailarinos em palco, no entanto «há uma desmultiplicação das personagens» em cada um deles; acabam por «ser muitos, mas, simultaneamente, não ser nenhum». No fundo, são o motor para «dar corpo ao manifesto», expressão que usa, num riso tímido.

Tal como outras obras suas, «este não é um espectáculo narrativo», mas antes «fragmentado», com muitas «mutações de luz e bailarinos», e onde se conjugam diversos elementos que, vulgarmente, não vemos na cidade e que, quando nos deparamos com eles, sabemos que não é ali o seu espaço de pertença. Esse choque, aqui, conduz-nos a «partes oníricas», quase «surrealistas», sendo um espectáculo «construído para que o espectador possa imaginar, dá espaço ao espectador para viajar na sua imaginação».

Será esta uma coreografia confinada à representação de um conjunto de conflitos que se expõem na cidade? Uma amostra superficial com contornos mais profundos? Há alguma mensagem específica que Olga Roriz queira transmitir?

«A mensagem é a que o espectador quer fazer.» Olga Roriz transmite uma preocupação com o que se passa no mundo, a que ninguém é indiferente. Logo no início do espectáculo há uma lista de palavras a que associamos a fenómenos negativos – «conflitos políticos guerras, cataclismos» – palavras que já fazem parte do nosso dia-a-dia, que passam no início do espectáculo, «em voz-off, lenta, como que em penitência, peregrinação, feita a partir de uma reza que é feita na Índia. Palavras que têm para mim uma matéria muito clara de reflexão». A mensagem que tem marcado o seu reportório artístico, que tem sempre uma «base muito urbana», passa por um confronto contra a «alienação», a «mecanização do dia-a-dia». A Cidade não é excepção.

«Criamos sempre protótipos do que não é suposto estar na cidade» e do que lhe pertence, mas para um espectáculo que fala de um assunto tão abrangente como complexo, tão vulgar e presente, com que facilmente nos identificamos, há, necessariamente, uma preocupação por não cair em lugares-comuns. Olga antecipa-se: «se me perguntar qual foi a maior dificuldade, foi precisamente fugir aos clichês, fugir ao óbvio». As tais palavras mencionadas no espectáculo são, então, um «falso princípio no início do espectáculo», porque acaba por se conjugar um conjunto de elementos reflexivos que no início não se espera.

Há também uma especial atenção cénica e com os figurinos. O trabalho técnico é complicado; Desde aquilo que Olga imaginou até à concretização final foi um trabalho complexo. Agora, quando finalmente composto, encontra-se feliz com o resultado. Quanto aos figurinos, há uma preocupação de sustentabilidade, pelo que a Companhia reaproveitou figurinos que já tinha, sendo «roupas do quotidiano, normais, mais pesadas, mais leves,  com mais ou menos cor».

Relativamente à música, procurou-se «fazer uma viagem por compositores que compusessem temas que tenham a ver com a cidade, contemporâneos». Melody Gardot, Nick Cave, são alguns dos músicos que se ouvirá nesta peça.

E como é desenvolvido o trabalho com bailarinos na Companhia ao longo das criações?

Olga Roriz pensa um tema para trabalhar, trata de encaminhar uma pesquisa daquilo que é indispensável sobre esse mesmo tema, para os bailarinos. Há, necessariamente, um trabalho de «observação interior» e que, posteriormente, promove uma discussão conjunta.

E liberdade de criação dos próprios artistas? Para responder a esta questão, Olga refere a cena final como exemplo: Catarina Câmara apresentou uma sequência há cerca de dois meses, e está presente na peça. Também o último solo da peça, interpretado por Bruno Alexandre, foi fruto de um improviso do bailarino. Olga apresentou «uma proposta muito clara, mais informações e música» e pediu a Bruno que, a partir dessas informações, fizesse um improviso. Com orgulho referiu que o resultado «foi quase perfeito», pelo que pouco alterou. Montar novamente o improviso, que foi filmado, reproduzi-lo com a mesma emoção é, sem dúvida, um trabalho complicado, mas que se concretizou.

No final de toda a criação coreográfica, o alinhamento é o que dá mais trabalho, porque tem de ficar tudo no sítio e tempos certos, «mas é o que dá mais prazer», afirmou com entusiasmo.

É esta uma reflexão individualista (“o todo é a soma das partes”) ou colectivista do indivíduo?

«Individualista.», diz sem dúvida. Há observação, mas relações, «nem efémeres». Nesta obra «não há relações, há olhares, percursos que se fazem em paralelo, mas cruzamentos há muito poucos». Há uma «massa anónima» .

É quando acaba a conversa, que dou conta do tempo que passou. Saio de volta para a cidade, cronometrando cada passo. Agora só resta esperar pelas 21h de sexta-feira. Tempos de pressa, os que vivemos.

A Cidade, da Companhia Olga Roriz, dias 12 e 13 de Outubro, pelas 21h, no Teatro Camões. Mais informações sobre o espectáculo aqui.

Agradecimentos: Bruno Simão (retrato de Olga Roriz) //  Teatro Camões.

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