«Orphée», Compagnie Montalvo-Hervieu, Culturgest

Originalmente publicado em arte-factos.net, no dia 18 de Dezembro de 2011.

Orfeu
fonte: Culturgest

Até ao dia de hoje inclusive, a Culturgest apresenta Orphée, um espectáculo de dança/performance, de José Montalvo e Dominique Hervieu.

Eurídice, sete da manhã
Vejo-a ao longe, a entrar para a estação
do metropolitano: mala Gucci, casaco de
peles, mini-saia. Na mão, ainda um copo
de plástico com beatas e rodelas de laranja.
Orfeu espera em Sete-Rios, duas pastilhas de
ecstasy no bolso, aflito com a ideia de que
não pode olhar para trás como da última vez.
José Mário Silva

Inicio este artigo com um poema da autoria de José Mário Silva e o/a leitor/a perguntará porquê. Terei de desviar o percurso até ir ao encontro de Orphée. A ideia de cruzar figuras/ideias improváveis, o clássico com o contemporâneo, o absurdo com o óbvio, e tantas outras dicotomias que se possam imaginar, sempre me agradou de alguma maneira. José Montalvo e Dominique Hervieu fazem-no com sabedoria, apresentando-nos encontros inesperados. Parece-me que, nesse sentido, o poema vai ao encontro da ideia deste espectáculo. Mais do que a materialização da leitura de um mito numa performance que une a dança com o vídeo e o canto, este é um espectáculo que oferece ao espectador uma adaptação daquilo que se pode extrair do mito de Orfeu, aos olhos do mundo de hoje; porque todas as leituras clássicas nunca deixam de ser actuais e continuam a disponibilizar-nos inúmeras reflexões para aquilo que são as preocupações do nosso tempo.

Orphée reúne no mesmo espaço linguagens diversas que fazem com que o espectador nunca saiba o que se seguirá. Desde cenas dignas de uma comédia musical, ao clímax – na minha opinião – que se dá numa dança harmoniosa e emocionante da bailarina Delphine Nguyen, toda a performance é imprevisivelmente encantadora; transporta-nos para outras realidades, também pela dualidade vídeo – coreografia. De destacar ainda o papel de Merlin Nyakam, com toda a sua teatralidade e dança afro-contemporânea, para além da prestação de Luca “Lazylegz” Patuelli, na sua dança em moletas, metáfora da superação humana que, no encontro com Orfeu (interpretado por Karim Randé, numa dança acrobática em andas) proporcionou ao público ainda umas gargalhadas. Não descurar, obviamente, o trabalho de todos os restantes bailarinos, cantores líricos e músicos.

Esta é uma peça extravagante e lúdica, uma simbiose da ‘assinatura’ de Montalvo-Hervieu, que se destaca pela “fluidez, rapidez e precisão” de movimentos (fonte: Culturgest) . Conta ainda com uma variedade de influências sui generis como a pintura de Peter-Paul Rubens, Orfeu confia no auxílio dos deuses no inferno, 1635, e a obra Orphée de Monteverdi, que elevam toda a multiplicidade de linguagens e dão forma a um universo expressivo e pitoresco.

“Um mito é sempre um drama humano em forma condensada.”

(fonte: Culturgest)

 

 

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